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Contou-me o eternamente saudoso professor Samuel Benchimol que, em uma prova da disciplina Direito Ambiental, pediu ele que a turma definisse o que é um ecossistema. Entre as respostas, esta preciosidade: “É um sistema de produção e reprodução de sons”.

É de senso comum que o nível cultural do estudante universitário brasileiro vem caindo assustadoramente. Conquanto a matéria seja objeto de estudo de especialistas, cuido não cometer estultice, qual a dos sons sistemáticos, se afirmar que isso se deve primordialmente à falta de leitura.

Massificada a comunicação televisiva, os livros passaram a representar a própria encarnação da chatice para os jovens, que se vão abeberar nesse manancial de cultura que são as novelas, os ratinhos, os gugus e quejandos, centrando suas atenções em como resolver o relevantíssimo problema da permanência ou não deste ou daquele estafermo nos tais de “big brothers”.

Vai daí que chega a dar saudade dos tempos em que as misses mais antigas proclamavam sua formação cultural com o certificado de que tinham lido “O Pequeno Príncipe”, e suas colegas mais recentes se gabavam da proeza de ter devorado, numa só noite, o “Fernão Capelo Gaivota”.

Hoje, se encontrarmos um jovem que possa comprovar, sem qualquer sombra de dúvida, que leu um “out door”, teremos que conferir-lhe a palma e uma coroa de louros, em razão da hercúlea façanha.

Na Universidade, essa falta de conhecimentos básicos se põe a nu, na medida em que, não se tratando da mera transmissão de lições acadêmicas, é indispensável que o aluno tenha compreensão de mundo, saiba nele se situar, seja universal, enfim.

Fora disso, os disparates se sucedem. Lembro-me agora de outra historinha, esta contada pelo professor Lourenço Braga, ex-reitor da nossa Universidade Estadual. Explicava ele, na disciplina Direito do Menor, que o então chamado pátrio poder dava aos pais o direito de corrigir os filhos, inclusive castigando-os fisicamente.

Um aluno ponderou com gravidade: “Mas isso há de ter um limite, não é, mestre?”. Diante da concordância, o jovem prosseguiu: “Quer dizer, professor, que se um pai pegar o filhinho de dois anos de idade, moer o menino de porrada e a criança ficar em coma, aí já houve um exagero”? “Claro”, foi a resposta. Veio, então, a réplica fatal: “A não ser – não é, professor? – que  o pai tenha agido em legítima defesa”.

Convenhamos em que tamanho despautério não tem nada a ver com conhecimentos jurídicos de maior ou menor intensidade. Trata-se, se quisermos amenizar, ficando no âmbito regional, de pura e simples leseira.

Comigo mesmo, um aluno pergunta se eu sei o que significa “obista”. Disse-lhe que não e ponderei se não seria “lobista”. E ele: “Não, professor, é “obista” mesmo. Está escrito aqui: o-b-s-t-a”. Não frequentou a terceira série do curso primário.

Há outras, não menos escabrosas nem menos risíveis. A questão, porém, não é aumentar o anedotário, mas sim manifestar a necessidade de urgente reforma do ensino brasileiro, a partir dos níveis fundamentais, inclusive revendo a pletora de livros didáticos, cuja maioria tem pouco ou nada a acrescentar em termos de formação de conhecimento.

Do contrário, o ridículo montará definitivamente sua tenda e estaremos contribuindo para a construção do país da estupidez.


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