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Quando visitam Stora Karlso, uma reserva natural de falésias de calcário próxima ao litoral da Suécia, os turistas mantêm uma distância respeitosa em relação às muitas aves marinhas para quem esta ilha é o lar. Como a maioria dos visitantes, seu objetivo é levar apenas fotos e deixar apenas pegadas – escorregar discretamente pelos fios da teia da vida que vieram contemplar.

Não foi assim este ano. Em estudo publicado esse mês na Biological Conservation, pesquisadores detalham como a súbita ausência dos turistas em Stora Karlso durante a pandemia desencadeou uma sequência de eventos que levaram o caos para a colônia local de airos, diminuindo a população de filhotes recém-nascidos.

Stora Karlso foi transformada em reserva natural na década 1880, após milhares de anos de ocupação humana. Sua população de airos – que chegou a menos de 100 espécimes por causa da caça e do consumo dos ovos – beira agora 60 mil aves, sendo a maior do Mar Báltico.

O pesquisador Jonas Hentati-Sundberg, da Universidade Sueca de Ciências Agrícolas e principal autor do novo estudo, estuda a colônia há 19 anos. Quando ele e sua equipe começaram a planejar a temporada de pesquisa de 2020, esperavam que a pandemia trouxesse obstáculos logísticos: sem os visitantes, haveria menos barcos em operação, e o restaurante da ilha ficaria fechado.

“Foi basicamente nisso que pensamos”, disse ele.

Entretanto, desde as primeiras viagens do ano, no fim de abril, eles repararam que os airos “estavam voando o tempo todo”, com alguns indivíduos desaparecendo por dias. Foi uma mudança no seu comportamento, disse ele, e um indício de que algo estava deixando as aves mais nervosas do que o habitual.

As águias-rabalvas da ilha também mudaram de comportamento. Normalmente, sete ou oito águias passam o inverno ali, partindo na primavera conforme aumenta o fluxo de visitantes, disse Hentati-Sundberg.

Mas, sem a chegada dos turistas, elas permaneceram por ali, e mais águias se juntaram a elas – às vezes dezenas delas de uma vez. “Elas se reúnem onde há fartura de alimento e onde as pessoas não as incomodam”, disse ele. “Nesse ano, o lugar escolhido por elas foi aqui”.

Uma observação aprofundada relevou a nova dinâmica: livres da incômoda presença dos humanos, as águias estavam importunando os airos.

Ainda que as águias-rabalvas raramente se alimentem de airos, as aves marinhas as temem, fugindo à menor aproximação. Em vídeo registrado em maio, uma figura distante de asas largas faz com que centenas de airos fujam e caiam das falésias, como o público do andar superior do teatro após o terceiro sinal.

Isso aconteceu de novo e de novo. Entre 1º de maio e 4 de junho, as aves de uma região da colônia foram afastadas de seus ninhos pela presença das águias por uma média de 602 minutos diários – muito mais do que a média observada em 2019, de 72 minutos.

Além dessa diferença no tempo, a colônia de airos perdeu ovos, jogados precipício abaixo durante decolagens em pânico ou abandonados às gaivotas e corvos famintos. Em 2020, o número de ovos chocados foi 26% inferior à média do restante da década.

“Do ponto de vista emocional, é um pouco difícil de digerir”, disse Hentati-Sundberg.

Pesquisadores de todo o mundo aproveitaram as restrições de viagem decorrentes da pandemia para estudar os efeitos da súbita ausência dos humanos na natureza, acontecimento que alguns batizaram de “antropausa”. Uma descoberta desse tipo, na qual a interrupção do turismo tem um efeito dominó em diferentes espécies, é “fascinante”, disse Nicola Koper, professora de ecologia da Universidade de Manitoba, que não participou da pesquisa. “Isso mostra a dimensão do impacto das mudanças nas nossas viagens para todo o ecossistema”.

Para Hentati-Sundberg, um verão em uma Stora Karlso transformada enfatiza o quanto estamos interligados a outras espécies – mesmo quando nos consideramos meros observadores. Ele diz que “entender nossa relação com a natureza e aceitar a ideia do ser humano como parte de um todo é uma estratégia mais frutífera” para as decisões ligadas à preservação.

“Sair de cena não é uma alternativa”, disse ele. “Já estamos aqui”. (Estadão)


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