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Revendo meus alfarrábios, deparou-se-me o texto abaixo. Decidi republicá-lo, em razão do paralelismo de situações, diante da decisão do Supremo Tribunal, em declarando a suspeição do ex-juiz Sérgio Moro. É que a magistratura não exige apenas o conhecimento da lei. Uma boa dose de sobriedade também é indispensável. Eis o texto:

A moça mandou fazer roupa nova para comparecer ao evento. Chegara-lhe à residência, no dia anterior, uma solene “intimação” para depor como testemunha em processo criminal. O fato tinha tido enorme repercussão midiática e, sem nenhum costume de tratar com essas trivialidades forenses, a ela pareceu que surgira a oportunidade de desfrutar dos famosos quinze minutos de fama. Imaginou-se cercada de repórteres, ávidos por novidades, fazendo mesmo aquele colar de microfones, que representa a glória maior de qualquer político em campanha. Vai daí que a conversa com as amigas não teve outro tema a partir de então. “Vou depor na Justiça”, transformou-se no bordão inicial de todos os seus diálogos, sendo que a última palavra era pronunciada com tal ênfase, que justifica a maiúscula do texto.

Despertou admiração no seu círculo. Nunca, nenhuma das outras tinha vivido experiência assim marcante e a expectativa semeou em solo fértil, trazendo consigo, aqui e ali, uma pitada de inveja, mais ou menos disfarçada. À socapa, chegou-se a ouvir algo como “ela está toda besta só porque vai ser testemunha”. “É, minha filha, quem nunca comeu melado, quando come se lambuza”, foi o comentário de uma outra, esta já visivelmente sem condições de esconder a revolta por não ter sido premiada com honra tão excelsa. “Testemunha! Uma lambisgóia daquelas!”

O tempo, como sói acontecer com os corações angustiados, parecia ter resolvido andar a passos de cágado. Ainda faltava um mês para a audiência e, aos olhos da moça, esses trinta dias tiveram a duração de séculos, tal a vagareza com que o sol deliberou cumprir sua missão de revezamento entre a claridade e a escuridão.  Até que chegou o grande momento. Como a coisa era à tarde, a manhã foi utilizada num azáfama entre cabeleireiro e manicure que, afinal de contas, “não posso comparecer perante a Justiça como se fosse uma qualquer”.

Uma hora antes, lá estava ela na sala. Bem vestida, maquiada, penteada e perfumada, à espera de que tivesse início o grande espetáculo, no qual (quem diria) ela era atriz de destaque. Eis que entra Sua Majestade (perdão, Sua Excelência). Entra com a beca esvoaçante, compenetrado de sua importância e defere um leve cumprimento de cabeça à plebe ignara, que o olha, pensa, com merecida admiração.

Vai ter início o depoimento da testemunha. Há que ser tomado o compromisso de dizer somente à verdade, coisa que os juízes fazem com a mais absoluta singeleza, advertindo a pessoa que vai depor sobre as penas cominadas ao falso testemunho. Ah, mas aquele não era um juiz normal. Estava ungido por óleos divinos e sacramentais, de tal maneira que sua autoridade não pode, não deve e não vai ser questionada por aquela mulher ridícula, toda pintada e empoada. E assim a voz trovejante ecoou em plenário: “Dona Maria dos Anzóis Prazeres, a senhora comparece hoje a este sagrado templo como testemunha no processo-crime que a Pública Justiça move contra o réu José Fredegundo. Quero lhe dizer que a senhora tem que tomar muito cuidado porque hoje sua vida pode mudar. Se eu perceber que a senhora está mentindo, a senhora sairá daqui algemada, diretamente para a penitenciária”.

A pobre mulher tremeu dos pés à cabeça. Então aquilo era a Inquisição e o juiz, o Torquemada? Decepcionada, conseguiu balbuciar: “Doutor, o senhor está me ameaçando”. A cavalgadura retrucou de pronto: “A senhora ainda não me viu ameaçar alguém!”

Salomão faria paráfrase de si mesmo e diria: “Vaidade das vaidades, tudo é estupidez”.


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