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Louco é quem quer ser ministro no atual governo federal. Se for, então, para encarar o Ministério da Saúde, aí a loucura é irreversível, na medida em que o presidente meteu na cabeça que está qualificado para interferir na área. Dois ministros se foram ainda no início da pandemia, por força de divergências. O que agora está de plantão  já recebeu sua dose de estupidez: anunciou a assinatura de um protocolo para aquisição de vacina chinesa e foi, momento depois, desautorizado pelo presidente. E Bolsonaro ainda faz graça: quando o chefe decide, o subordinado cumpre a ordem, disse ele, em alusão ao fato de serem ambos milicos, ele e o ministro.

Parece brincadeira. E é. Quando o país atinge o patamar de mais de cento e cinquenta mil vítimas fatais do vírus, o presidente da República se dá o direito de politizar uma questão eminentemente técnica, assim como se estivesse falando de jogos de futebol. O mundo inteiro anseia por uma vacina capaz de enfrentar o inimigo, mas Bolsonaro politiza o assunto e faz beicinho porque seu adversário político, o governador João Dória, se mostrou favorável à aquisição do produto “made in China”.

Deve ser por medo de que a vacina, em razão de sua origem, tenha propensões para o comunismo. Tolice absoluta: a China pode ser tudo, menos comunista, no sentido que à palavra deram Marx e Engels. E, ainda que o fosse, tal comunismo estaria temperado pela participação do brasileiríssimo Instituto Butantã. A não ser que Sua Excelência imagine que as serpentes do Butantã também estão unidas na luta pelo socialismo.

É mais um episódio lamentável nesse governo de fancaria. O ódio é a pedra de toque que o sustenta e, a partir dele, desenvolve-se toda uma gama de atitudes antipovo, a se revelar na forma como são tratadas as questões culturais e das minorias. E as da própria saúde também, eis que todo mundo se lembra de Bolsonaro alardeando sua condição de atleta e a desdenhar de “uma gripezinha” que não teria o condão de abalá-lo.

Melhor andaria o presidente se se desse conta de que está quase na metade de seu governo e ninguém viu o atingimento de nenhuma das metas propaladas durante a campanha. Veja-se a promessa de acabar com o que ele mesmo chamou de “velha política”, consistente na troca de favores (leia-se: cargos e dinheiro) entre executivo e legislativo. Balela. Aí está, para não me deixar mentir, o chamado Centrão que, no Congresso Nacional, dá sustentação ao governo não pelos belos olhos do presidente, mas, sim, à custa de benesses, algumas delas capazes de tangenciar a lei.

Outra bandeira era o combate à corrupção. Aqui o desempenho governamental não atinge nem a condição de pífio, por isso que se revela inexistente em todos os sentidos. Basta olhar o comportamento da própria família presidencial, com os filhos, dignos herdeiros do pai que têm, sempre às voltas com problemas de “rachadinhas” e outras mutretas.

Não bastasse isso, um dos vice-líderes do governo no Senado da República se deixa apanhar literalmente com as calças na mão, exibindo uma cueca recheada de notas de real. O episódio do Chico Cuecão é emblemático. Permite vislumbrar que a seriedade do governo é pura aparência, enquanto lá no cerne do assunto, continua a vigorar a indecente troca de favores e a mais indecente ainda apropriação do dinheiro público.

Que Bolsonaro é arrogante e presunçoso cuido ser coisa inegável, mesmo para os fanáticos que ainda o veem como “mito”. Que extravase essa arrogância em questões menores, pode-se até tolerar, como forma de convivência política. Mas tal liberalidade há de cessar quando está em jogo o interesse de toda a Nação. E outra coisa não é a necessidade de acabar com o amadorismo no trato da pandemia. Esta já mostrou que não está para brincadeiras. Em assim sendo, o mínimo que se pode esperar do chefe de governo é que também acabe com as brincadeiras de mau gosto e se ponha a trabalhar. De minha parte, quero uma vacina, venha ela de onde vier. Se tiver um viés comunista, tanto melhor: estabeleceremos um companheirismo fraternal.


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