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A Igreja Adventista no Japão enfrenta desafios iguais aos da organização em outros países, mas com diferenças significativas diante de um ambiente culturalmente singular. O futuro promete ações missionárias em pelo menos duas direções principais: fortalecimento do trabalho com os atuais membros e maior proximidade com os nativos e um intenso trabalho com os estrangeiros que vivem no país. Com informações de Notícias Adventistas.

Para entender melhor este contexto, a Agência Adventista Sul-Americana de Notícias (ASN) conversou com o pastor Guenji Imayuki, diretor do Departamento de Evangelismo dos Estrangeiros da União Japonesa (JUC). Ele é, também, pastor distrital de três igrejas latinas (Tokai, Isesaki, Chiba Latino) e atua no plantio de 1 igreja (Suwa).

Com 53 anos, Imayuki tem quatro filhos, duas nas faculdades em Tóquio, um no internato adventista de Saniku Hiroshima e o caçula na escola pública japonesa. Ele está em missão no território desde março de 2015, ou seja, quase 5,5 anos. É graduado em 2008 pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (campus Engenheiro Coelho), com mestrado na mesma instituição em 2009, ordenado ao ministério pastoral no final de 2012.

Realidade atual

Como tem sido o trabalho de evangelização no Japão atualmente? E o que mudou desde o tempo em que o senhor começou o trabalho na região?

A obra no Japão enfrenta, há pouco mais de 10 anos, desafios estruturais como estagnação do número de batismos, aumento da idade média dos seus membros e, consequentemente, diminuição das entradas, o que requer um quadro de obreiros bem enxuto. O canal Hope Channel Japan (equivalente à TV Novo Tempo e Nuevo Tiempo na América do Sul), por exemplo, está no ar na web com apenas quatro funcionários e um pastor encarregado dos departamentos de Jovens, Desbravadores, Publicação e Mordomia.

Desde a minha chegada, a liderança enxerga dois pontos cruciais administrativamente para a sobrevivência da igreja a longo prazo: investimento em jovens e em estrangeiros. Muitos dos jovens acabam se afastando da igreja durante e depois da graduação, devido às demandas da carreira profissional. Desde a implantação do programa Youth Rush, ou  Arrancada Jovem (https://www.facebook.com/youthrushjapan/ ou https://adventist.jp/evangelism/blog/youth-rush-japan/), um misto de colportagem estudantil de férias com Missão Calebe, há cinco anos, jovens têm se motivado a investir suas férias em missão. Certamente desse grupo sairão alguns futuros líderes.

Quanto aos estrangeiros, graças à presença deles, a média de idade dos membros não é maior ainda, e já representam 16% dos 6.000 membros ativos. No cadastro da secretaria, constam 15.000 membros, porém a maioria não consegue mais frequentar regularmente devido à idade. O desafio é capacitar a segunda geração dos estrangeiros, que já entende melhor a língua e a cultura, para que se comprometam em alcançar os japoneses com o evangelho de Cristo.

Trabalho com imigrantes

Sabemos que há um trabalho forte com os imigrantes brasileiros, certo? Como tem sido?

A maior parcela de adventistas estrangeiros, em torno de mil, é de filipinos, com quase 40% desse total, e os brasileiros vêm em segundo com 18%. Boa parte dos nossos patrícios se encontra nas províncias de Aichi e Shizuoka, famosas por suas indústrias automobilísticas, embora uma minoria esteja empregada nesse setor. Nessa região, temos as igrejas Centro Cristão Tokai, Toyota, Toyohashi, Kariya, Yaizu e mais recentemente Kagamigahara. Esta última se reúne numa casa antiga, adquirida e reformada, mesmo durante a pandemia, pelos próprios membros e amigos, em torno de 10, com doação do Brasil. O Centro Cristão Tokai foi a fusão de duas igrejas brasileiras próximas para receber a oferta do 13º sábado do 3º trimestre de 2015 a fim de adquirir uma sede própria.

Em dezembro de 2017, foi dedicado o prédio atual para não somente ter os cultos, mas desenvolver atividades diversas, como horta familiar, musicalização, curso de culinária, palestras de saúde, transmissão de programações próprias. Tudo para se configurar como um centro de influência. Ela possui vários quartos e chuveiros para receber temporariamente famílias em necessidade e também equipes em missão. De certa forma, isso tem atraído a atenção da comunidade, pois fomos objetos de uma matéria da BBC sobre o evangelismo entre brasileiros no Japão (https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54066196).

Histórias inspiradoras

Relate algumas histórias que evidenciam os resultados deste trabalho realizado.

Márcia Yuassa sofria de alguns problemas de saúde e temia pela sua vida, deixando preocupados o marido e o filho, quando conheceu um programa de saúde desenvolvido no Brasil. Entusiasmada com a melhora visível, aceitou também a mensagem do sábado, e confidenciou isso a uma amiga de infância, que mora no Brasil e que encontrou via internet depois de muito tempo. Justamente essa amiga já havia se unido à Igreja Adventista do Sétimo Dia e afirmou que também guardava o sábado, oferecendo assim a possibilidade de estudos bíblicos à distância.

Como Márcia desconhecia a existência de uma congregação adventista aqui no Japão, a amiga se prontificou em ajudá-la a localizar uma, até que encontrou o número do meu celular. O problema da Márcia era não ter carteira de habilitação, algo bem complicado devido ao rigor dos órgãos de trânsito. Qual não foi a alegria dela quando soube que exatamente naquela semana se iniciaria um pequeno grupo a pouco mais de um quilômetro de distância da casa dela. Contente, ela veio a pé no horário para relatar a nós do grupo sua história de como Deus a conduziu.

Minha esposa rapidamente reconheceu o talento da Márcia e a envolveu no planejamento e preparo de pratos da culinária vegetariana a partir das orientações que recebera. Atualmente, a grande motivação desta pessoa é preparar uma receita nova, semanalmente, para ser editada e disponibilizada brevemente no canal da Igreja de Tokai.

A proposta por iniciativa dela é a de cozinhar um cardápio saudável uma a duas vezes por mês na sexta para ser servido no almoço do sábado, no lugar do tradicional junta-panelas, com a finalidade de mostrar aos membros alternativas mais saudáveis e ao mesmo tempo saborosas.

Desafios

Quais os maiores desafios atualmente e como vocês têm superado?

Centro cristão em Tokai. (Foto: Acervo pessoal)

A onda do Covid-19 fez com que a maioria das igrejas do Japão fechasse temporariamente em março e abril. A igreja do Centro Cristão Tokai foi uma das primeiras a reabrir, como a maioria das igrejas estrangeiras, com as devidas precauções. E, a exemplo do que ocorre no Brasil, a internet tem sido a grande ferramenta para conectar os membros e ampliar ainda mais o alcance da igreja.

De fato, a pandemia acelerou o processo de criação de conteúdos, especialmente o programa GPS, Grupo de Perspectiva Saudável. Trata-se de uma equipe multiprofissional das áreas de psicologia, pastorado e de saúde, organizada na região centro-oeste do Brasil, para uma série de palestras com orientações sobre relacionamento intra e interpessoal, para atender uma escalada de crises familiares impulsionadas pela pandemia.

A programação teve continuidade com cursos pagos voltados às líderes de várias igrejas e tem produzido efeito positivo tanto cognitivo-emocional como espiritualmente, pois algumas delas decidiram abrir pequenos grupos em suas casas, depois que o pico da crise passou.

A missão sempre tem muitas frentes. A União local (sede administrativa adventista da região) só consegue oferecer treinamentos em língua local. Para os estrangeiros, é necessário que nós mesmos preparemos o conteúdo ou interligando com recursos de outros países. No dia a dia, há demanda para ser tradutor para atendimento hospitalar ou visitas a delegacias ou prisões para ajudar conhecidos dos membros. Viver no estrangeiro significa maior solidão e a família pastoral tem de atuar como conselheiro nas áreas psicológica, familiar, educacional e financeira.

Como diretor do departamento de Evangelismo de Estrangeiros, outro desafio é levantar recursos e encontrar um imóvel que possa ser adequado a um futuro centro de influência para filipinos e hispanos, além de viabilizar obreiros para missão entre etnias com pouca presença adventista, como vietnamitas, nepaleses, além dos chineses do continente, que é o maior contingente de estrangeiros no Japão.

Cerimônia de batismo ocorrida no país. Expectativa é fortalecer missão adventista na região. (Foto: Acervo pessoal)

Planos futuros

Quais são os planos para o futuro?

Um programa mais intenso de discipulado, tanto dos antigos como novos membros, criando ministérios que aproveitem os dons dos membros. A maioria vive uma rotina massacrante das fábricas, quando em auge da produção, ou a insegurança do trabalho, em momentos como a crise atual. Muitos têm talentos que poderiam ser mais bem aproveitados ao se criar oportunidades missionárias que até então não eram exploradas. Falo de áreas como mídia, produção de conteúdos, culinária, educação multidisciplinar, e até maquiagem, para apoiar a produção de conteúdo midiático.

Quanto a outros estrangeiros, o plano é viabilizar financeiramente obreiros para desenvolver um ministério para etnias com pouca presença adventista, pelo menos para chineses do continente e para vietnamitas.


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