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Parece certo que, pelo menos há duas décadas, estabeleceu-se uma nova verdade científica: andar a pé é indispensável para a manutenção de uma saúde perfeita, evitando males de toda sorte. Mas, em homenagem até à solenidade com que deve ser recebido todo avanço, quem se dedica a esse antigo mister com a finalidade já referida, não anda, caminha.

“Desculpe, o doutor fulano de tal não está. Este é o horário em que diariamente ele sai para caminhar”. Essa é uma resposta corriqueira, sempre presente na língua de secretárias e telefonistas dos locais de trabalho dos mais prestigiados profissionais. Afinal, se o nosso bom doutor não caminhar, como vai ter saúde para atender seus inúmeros clientes, os quais, por sua vez, também dão suas caminhadas nos mais diferentes locais da cidade.

Lá se vão, pelo passeio ou pela orla, atléticos mancebos e gentis damas, caminhando assimetricamente, com o uniforme apropriado para tão nobre exercício que inclui, na maioria dos casos, um fone de ouvido ligado a um aparelho de MP3, por meio do qual o caminhante vai se deliciando, ou com uma sonata de Mozart, ou com a recente edição desse edificante conjunto de sons conhecido como axé, esta última opção talvez mais apropriada porque, entorpecendo o cérebro, permite total concentração no físico.

Contemplando esse novo quadro na busca pela saúde e pela longevidade, tenho que reconhecer, conquanto não adepto da prática, que possui ele um quê de igualdade social. Explico-me, se andar a pé, digo melhor, caminhar, faz bem, parecem assegurados os seus benefícios a quantos não possuem automóvel, nem dispõem de dinheiro para pagar ônibus, e que, por isso, têm que ir trabalhar “na pátria amada”, como se dizia nos meus longínquos tempos de criança na rua Leonardo Malcher.

Ora, mas se assim é, forçoso é reconhecer também que uma contradição se intromete em nosso assunto. Antes da invenção da roda, a duração da vida humana deveria ser quase eterna, eis que nossos remotos ancestrais não tinham escolha que não fosse a utilização dos membros inferiores para suas atividades venatórias e/ou agropastoris, daí resultando que sua saúde haveria de ter atingido níveis aptos para inscrição no Guiness Book.

É claro que quem caminha, não fuma. A incompatibilidade representa ponto positivo para esse grande médico que é o doutor Aristóteles Alencar e, do qual já levei exemplares admoestações pela mania que cultivava de andar com a carteira de cigarros no bolso, quase sempre levando um acesso à boca. A pandemia me obrigou a largar um vício que se estendia por mais de seis décadas. Agora, conformo-me em pitar um cachimbo nos fins de semana e em casa. É um pálido substitutivo do cigarro em si mesmo, que vinha obrigatoriamente depois de um gole de café ou um trago de uísque.

Paciência. Nasci muito antes da “geração saúde” e o mais próximo que cheguei de uma “academia”, com certeza não foi para malhar. Mas devo usar um argumento a meu favor: o que eu já andei a pé na vida exige o trabalho de um computador para se expressar em números. Cuido, pois, que tenho saldo.


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