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Acordei com uma enorme vontade de tomar banho de rio, subir numa árvore para apanhar frutos, andar descalço na terra, receber um cafuné e de conversar assuntos cotidianos sem o relógio ditando os rumos. Questiono-me se essa sensação seria uma incrível vontade de liberdade. Um enigma que tem sua solução no ato de fazer coisas simples. Sim. O sentido da vida pulsa na descoberta do caminhar em busca de uma autonomia (individual e social) do sujeito.

Ouço inquieto a música de Raul Seixas que diz: “Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis, mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado”.

Guia-me o destino, o acaso… Construo meu próprio futuro. As amarras sociais e egoísticas impedem meu andar e obnubila minha visão. Invade-me uma estranha sensação, um mal-estar que me deixa impotente. Como um ópio ou uma religião, ela me entorpece.

É a ansiedade. Um mal que chegou para ficar, marcando nossa época de incertezas, imprevisibilidades e descontrolando os rumos da vida. Ela amplia o estar no espaço privado e dilapida a permanência no átrio público. Do meu escritório residencial reflito sobre o convívio com o inesperado e com a contingência desse vasto mundo.

Mas quem não é ansioso nesses tempos? Uma população de crianças, de jovens e de idosos reféns de metas e de controles sociais e econômicos, e ainda tem que saber viver com descontroles impostos pela vida atual. Clínicas psicológicas lotadas. Uma multidão de humanos movida por prontuários médicos.

Há um cansaço na mente. Há um cansaço físico. Novas tecnologias chegaram. O mundo do trabalho ficou muito automatizado, a produção fabril caiu, o trabalho em casa cresceu, o transporte evoluiu e a comunicação tornou o planeta numa pequeno lugar de contradições e de manifestações.

Os homo sapiens trilham um caminho desconhecido, obscuro. A solidez das certezas da vida se desmancha diante dos inumeráveis questionamentos de sua vivência. Os paradigmas de organizações sociais, relações humanas e de vida boa, quedam ultrapassados. Há uma enorme angústia. A época da solidão se propaga diante dos sons estridentes das invenções capitalistas.

A religião, o Estado e a família tornaram-se modelos que já não explicam as antinomias e as contradições do mundo. Valores como o amor, justiça, paz e respeito ao outro são desprezados. Se nada resiste a corrosiva ação do tempo, se tudo está evaporando, por que o amor seria a resistência?

Mundo tão desigual, vida tão desigual. De um lado, pessoas em filas para pegar ossos, único alimento que lhes resta. Do outro, um bilionário passeando pelo espaço. Mundo de fome total e de carnaval.

O mal naturalizou no cotidiano e a pobreza também. O ódio é plataforma de políticos malfeitores. Alguns chegam à presidência da República, aos ministérios, aos governos, em vários cargos públicos, e até são homenageados e bajulados.

A vida não é o centro das preocupações. O valor é outro. O homem perdeu a vida e sua essência para aquilo que ele criou. Tudo parece líquido, até o sentido e a importância da vida. O culto às tecnologias é o seu núcleo nervoso.

Mas tudo bem. Vou buscar um cantinho para deixar minhas angústias. Temos que aprender a conviver com o que não podemos controlar, pois, nessa solidão, lembra a letra da música: “Infeliz de quem tá triste no meio dessa confusão”.

Carlos Santiago
Sociólogo, Analista Político e Advogado.


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