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As notícias disputam espaço privilegiado na grande imprensa. Uma informa que, em um dia, mais de oitocentas pessoas morreram vitimadas pela doença da pandemia; outra, em tom apoteótico, revela que o governo federal zerou o imposto de importação sobre o comércio de revólveres, pistolas e suas respectivas munições. Ampliando a visão, é possível compreender que ambas as notícias se entrelacem. Afinal de contas, as duas falam de morte.

O vírus continua em sua caminhada ascendente na destruição de vidas, enquanto o ministro da Saúde não move uma palha para estabelecer um plano viável de distribuição e aplicação da vacina que, parece, vai estar disponível a curto prazo. É uma contribuição omissiva para a morte. Também contribui para facilitar o trabalho da Magra o especial interesse do presidente da República em armar o maior número possível de cidadãos, ao argumento de que está apenas incentivando um hipotético direito de defesa.

Quanto ao primeiro assunto, a displicência oficial é, no mínimo, vergonhosa. Não é só o país, é o mundo que clama pela chegada do remédio, de tal forma que os responsáveis pelos destinos dos povos têm o dever de proporcionar meios de atendimento a esse clamor popular. No que diz respeito à segunda questão, só tenho a dizer que facilitar, por qualquer meio, o acesso generalizado a armas de fogo vai contribuir apenas para o aumento da violência, redundando em mais homicídios e suicídios, agravando um quadro já de si caótico.

Vez por outra vem à baila a questão de liberar o porte de armas de fogo para os advogados. Os colegas que sustentam essa bandeira, fazem-no, em parte, com base no argumento de que juízes e promotores desfrutam de tal “privilégio”, sendo lógico, pois, que aos advogados seja ele também deferido. Nunca fui convencido por essa retórica. A respeito do assunto, já escrevi assim: “Para que um advogado há de querer andar armado? Na parte que me toca, não canso de repetir aos meus alunos que a única arma de que dispomos é a palavra. Escrita ou verbal, é com ela, e só com ela, que havemos de enfrentar as lides e combater as iniquidades. Quando o advogado, no Tribunal do Júri, usando o tempo de que dispõe, promove a defesa de seu cliente e lhe consegue a absolvição, foi só a arma letal da palavra que forjou a convicção da maioria dos cidadãos jurados”. E acrescentava: “Há perigos no exercício profissional? Há e muitos. Nada, porém, que permita imaginar seja necessário recorrer a armas de fogo como forma de solução de pendências.  “No seu ministério privado, — diz o nosso Estatuto – o advogado presta serviço público e exerce função social”. Vamos prestá-lo e exercê-la do alto de nossa dignidade e, já que somos indispensáveis à administração da justiça, não temamos os arreganhos dos façanhudos que, com beca ou sem ela, quiserem opor obstáculos ao desenvolvimento do nosso múnus”.

Não me sinto tentado a mudar de opinião. Quando nada porque o Brasil vive uma fase em que se o Presidente se manifesta num sentido é melhor e mais sensato optar pelo sentido contrário. Há noventa e nove vírgula nove por cento chance de ser o rumo certo. Com efeito, Jair Bolsonaro não encarna a figura de um líder que inspire respeito e transmita segurança aos que o seguem. Suas fixações freudianas lhe tiram qualquer resquício de respeitabilidade que o exercício do cargo lhe pudesse conferir.

Agora mesmo, nesta semana, fez piada televisiva sobre o uso de ozônio para combater a covid. Não foi nem sobre a eventual eficácia de tal tratamento, mas apenas porque, pelo menos pelo que eu pude entender, o ozônio seria aplicado por via retal. Não há de ser agradável, é certo, assim como não o é o tratamento preventivo da próstata. Mas eu nunca tive notícia de que algum homem se tenha despido de sua masculinidade por se ter submetido a um toque retal. Manifestando tanta ojeriza por essa prática científica, Jair Bolsonaro apenas revela um medo patológico de que ela venha a afastá-lo do caminho de macheza que ele tanto alardeia e preza.

Reconheço que a vacina vai ser melhor que o ozônio. Por isso, faço coro com a maioria dos meus compatriotas: vacinação já, sem mais papagaiadas ou palhaçadas do Ministério da Saúde.

P.S. – Rendo minhas mais profundas homenagens à memória e ao talento de Severiano Mário Porto, o arquiteto que deixou em Manaus a marca de sua genialidade.


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