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O discurso do então governador do Amazonas, Antônio Constantino Nery, proferido em 1905, na Assembleia Estadual, em que reclamava da presença de capoeiras em Manaus é um dos registros que compõem o livro Capoeira: o patrimônio gingado do Amazonas, publicação que será lançada neste sábado, 21, às 14h (Horário de Manaus), em evento online. Reunindo matérias jornalísticas, legislações e discursos políticos, além de registros orais, o livro refaz o percurso da capoeira no estado do Amazonas desde fins do século XIX. Para os mestres capoeiristas que conduziram a pesquisa, o volume demonstra como a história da capoeira no estado atravessa grandes episódios da história do Brasil.

A publicação é fruto da parceria entre os mestres e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), autarquia vinculada ao Ministério do Turismo e à Secretaria Especial da Cultura. Desde 2014, o Iphan-AM vem mobilizando a comunidade de capoeiristas, reunindo capoeiristas, grupos e coletivos para demonstrar o reconhecimento da Roda de Capoeira e do Ofício dos Mestres de Capoeira como Patrimônio Cultural do Brasil, bem como do alcance das políticas públicas de apoio e fomento à manifestação. Os bens também são reconhecidos como Patrimônio Mundial pela Unesco.

“Desde 2014, o Iphan no Amazonas realiza ações com mestres e grupos de capoeiristas. Em 2016, com apoio do Iphan, foi realizado o primeiro Encontro Norte Capoeira. E nos últimos três anos tivemos os seminários da salvaguarda da capoeira no Amazonas”, explica a superintendente do Iphan-AM, Karla Bitar. “Foi no âmbito dos seminários que discutimos questões como a profissionalização e reconhecimento do ofício dos mestres da capoeira, o mapeamento da manifestação no estado e a própria e a ideia de se editar o livro com a história da capoeira no Amazonas, que em 2020 concretizamos.”

O Patrimônio Gingado

A elaboração do volume foi liderada pelos próprios praticantes. A prioridade era documentar e sistematizar dados sobre a manifestação, aliando registros em documentos escritos à oralidade. Como resultado, a capoeira aparece no estado do Amazonas, sobretudo em Manaus, como parte do cotidiano social e cultural, desde o século XIX. E, por isso, na avaliação Luiz Carlos de Matos Bonates, conhecido como mestre KK Bonates, que participou da pesquisa para a publicação, “a história da capoeira no Amazonas se atravessa com a história do Brasil”.

Um desses episódios é a Revolta da Vacina, que ocorreu no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, em 1904. Muitos dos presos durante a revolta, que eram capoeiristas, foram remetidos como degredados em embarcações para prisões na região amazônica. Eles acabaram estabelecendo suas vidas em Manaus e interagindo com capoeiristas manauaras. Mas os registros de capoeiras aparecem nos jornais do estado desde o período da borracha, quando a região amazônica se tornou a principal fornecedora de látex do mundo, ainda no século XIX.

“O livro traz todo o percurso da capoeira no estado. Pra gente, é um inventário da capoeira no Amazonas. Reunimos registros escritos, documentos de todo o tipo, além das narrativas orais, a tradição dos mestres da capoeira”, explica o mestre KK Bonates, 61, praticante da capoeira desde os 12 anos. “Com nossa pesquisa e a publicação, teremos subsídios para formular políticas públicas na capoeira. Foi assim que solicitamos que a capoeira se tornasse também Patrimônio Cultural do Amazonas e vamos pleitear que se torne Patrimônio Cultural de Manaus”, completa Bonates, que faz parte da Escola de Capoeira Matumbé, que está em funcionamento há 41 anos na capital amazonense.


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