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A alta de juros já na próxima reunião do Copom, marcada para 16 e 17 de março, tornou-se inadiável, sob o risco de o mercado avaliar que o Banco Central está perigosamente “atrás da curva”, o que poderá forçar um aperto monetário total muito maior do que se o BC tivesse uma postura proativa.

Se nas últimas semanas os argumentos para a elevação de juros pelo Copom em março eram fortes o suficiente, agora o ambiente político e macroeconômico deixou irresistível a pressão para a alta imediata da taxa Selic, atualmente em 2,0%.

Isso muito em razão da turbulência recente nos preços dos ativos, gerada pela interferência do presidente Jair Bolsonaro na Petrobrás e também pelo texto proposto para a PEC emergencial, que autoriza a concessão do auxílio emergencial sem uma contrapartida imediata de medidas para compensar esse gasto.

Na segunda-feira, quando o nervosismo dos investidores bateu seu auge, o dólar chegou a ultrapassar R$ 5,53. Na última reunião do Copom, no dia 20 de janeiro, a moeda americana fechou um pouco acima de R$ 5,31.

Na virada do ano, a avaliação do Copom era de que o ambiente externo mais favorável poderia levar a uma desvalorização do dólar, para mais próximo de R$ 5,00, o que ajudaria a reverter em parte o choque observado nos preços dos alimentos e dos combustíveis. Mas o dólar está mais perto de R$ 5,50.

Não à toa o salto das expectativas inflacionárias para 2021. Na mais recente pesquisa Focus, a mediana das projeções para o IPCA neste ano passou de 3,62% para 3,82%, acima da meta de inflação, de 3,75%. Para 2022, ano considerado pelo Copom como horizonte mais relevante para política monetária, os analistas estimam inflação de 3,49%, enquanto a meta é de 3,50%.

Outro fator preponderante para a decisão do Copom é quanto à trajetória fiscal. Em relação ao auxílio emergencial, o governo trabalha para que o custo total não ultrapasse R$ 40 bilhões, com quatro parcelas de R$ 250 a serem pagas em março, abril, maio e junho a até 40 milhões de brasileiros.

A PEC emergencial permitiria o pagamento desse benefício via crédito extraordinário, despesa que ficaria fora do teto de gastos e também da meta de resultado primário, que prevê um rombo fiscal de R$ 247,1 bilhões em 2021. Por outro lado, a PEC deixou para o futuro o acionamento de gatilhos, como o congelamento de salários ou a criação de novas vagas no serviço público.

Assim, de um lado, a concessão do auxílio emergencial geraria um estímulo imediato sobre a demanda, podendo causar pressão sobre os preços. De outro, como o desenho da PEC prevê que as medidas de ajuste sejam acionadas apenas no futuro e a despesa adicional ficaria fora do teto de gastos, essa situação certamente poderia ser descrita pelo Copom como quebra do regime fiscal.

Até há pouco tempo o Copom dizia que, se o regime fiscal fosse alterado, as expectativas inflacionárias seriam afetadas, levando à alta dos juros. Se o regime fiscal era não ter despesas além do teto de gastos, com a PEC emergencial essa condição já não existe mais.

Assim, o Copom deveria antecipar o início do ciclo de alta de juros para março e começar o aperto com elevação de 0,50 ponto porcentual. Se pecar pela cautela, adiando o início do ciclo de alta de juros, o Copom corre o risco de ter de elevar a Selic para um patamar maior do que o esperado hoje. Na pesquisa Focus, os analistas projetam Selic a 4,0% no fim deste ano.

Se o mercado considerar que o BC está atrasado, mantendo um elevado grau de estímulo monetário quando as condições não mais o permitem, o Copom poderá ser forçado a elevar a Selic para bem além de 4,0% no fim do ano.

Basta lembrar o que aconteceu quando Alexandre Tombini comandava o BC durante o governo Dilma Rousseff: após ter cortado a Selic para a mínima histórica até então, a 7,25%, o BC demorou para elevar os juros quando a pressão inflacionária já era forte e o mercado percebia o BC como atrás da curva e tendo uma postura reativa e não proativa. Onde foi parar a Selic? 14,25%. É bom não repetir o passado. (Estadão)


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