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Hoje, dando continuidade à série “Vozes da Educação de Manaus”, transcrevemos aqui a entrevista, feita pelo sistema de troca de mensagens (WhatsApp), com o professor Bibiano Garcia, como segue. 

Conte-nos um pouco sobre você. Onde e quando você nasceu? 

Bibiano Garcia. Sou um caboclo amazonense, nascido de parto normal no interior de nossa pequena casa de madeira, em Manaus, em 13 de dezembro de 1972. Até os 8 anos vivi na vila da EMBRAPA, na estrada Am 010, km 30. Mais tarde viemos para o bairro Santa Etelvina onde permaneço até os dias de hoje. Meu pai, já falecido, se chama Bibiano Simões Garcia e minha mãe, de 83 anos, chama-se Maria José da silva, vindos do interior do Pará, uma cidade chamada Alenquer. Sou formado em filosofia, casado com Soraia Reis Garcia e pai do Bruno e da Sophya, que completou 15 anos neste último dia 12. Sou professor de Ensino Religioso, ministro extraordinário da Palavra e Comunhão Eucaristia, missionário leigo redentorista e ativista de movimentos de lutas por melhoria da educação e combate a corrupção.  

Quando você começou na educação? 

Bibiano Garcia. Fui seminarista na Congregação Redentorista (um dia pensei em ser padre) e “pai social” na organização não-governamental “Aldeias Infantis SOS Brasil”, (por um período, deixei a sala de aula para morar com adolescentes ajudando-os em sua formação para a vida. Eram crianças advindas de um mundo de violência). Desde tenra idade me envolvi com as lutas pastorais e sociais, principalmente em defesa dos direitos humanos. Em 2006 envolvi-me de forma mais direta na luta por melhorias na educação. 

De lá para cá, qual é a maior mudança que você percebe? Poderia explicar? 

Bibiano Garcia. De lá para cá, em nossas lutas de movimentos, vivi os altos e baixos. Os pontos altos deram-se quando avançamos na união de todos em torno de pautas comuns como: correta aplicação dos recursos do FUNDEB, cumprimento do PCCR e reajuste salarial. Os momentos baixos que vivi, acredito que se deram quando nos faltou a união das lideranças da educação, o que contribuiu para a fragilização da categoria, há tempos dividida em dois sindicatos e em vários movimentos oposicionistas. Cada um ligado direta ou indiretamente a partidos políticos. Nada contra. Pelo contrário, creio que é preciso organizar-se politicamente.  

Você se considera um professor realizado? 

Bibiano Garcia. O que me realiza é a perseverança. De 2012 a 2016, mesmo tendo sido apontado como uma das maiores vozes em defesa da educação no parlamento municipal, quando exerci o mandato de vereador, não vi essa força se converter em êxito para um segundo mandato. Em 2018 tentamos levar as diversas pautas de lutas pela educação pública e de qualidade para dentro da Assembleia Legislativa, mas novamente não obtivemos êxito nas eleições. E em 2020 mais uma vez não obtemos êxito.  

Quais são as suas influências pedagógicas, isto é, quais foram os autores que mais lhe influenciaram ou que lhe influenciam na formação acadêmica, profissional, humana, espiritual? 

Bibiano Garcia. Sobre minhas influências, tanto na vida acadêmica quanto na vida pessoal, destaco os meus pais, sábios por natureza. Mas também destaco a vida de Jesus Cristo, Francisco de Assis, Paulo Freire, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Dom Jacson Damasceno Rodrigues e Padre Rogério Ruvoletto. Os livros que me marcaram foram: Confissões de Santo Agostinho, Carta Encíclica Laudato Si, de Papa Francisco, Tráfico de Mulheres na Amazônia, Reforma Política Democrática, Iniciação ao Silêncio, A Mosca Azul, As Paixões da Alma, Manaus Amor e Memória, A Arte da Guerra… Estes e outros me influenciaram na vida, na formação acadêmica, profissional, humana e espiritual. Estes últimos dias estou lendo um livro escrito por Dom Luiz Soares Vieira intitulado “Não Perder a Esperança” onde ele afirma que, “no meio das crises morais e éticas, por que passou e passa a sociedade e que trouxe sofrimentos sem conta a nosso povo, senti que precisava gritar que os valores da paz, da verdade, da solidariedade e da justiça eram o único caminho para construirmos um mundo melhor.” 

Com toda essa sua experiência na educação, conte-nos uma coisa interessante, pode ser pitoresca, que aconteceu com você. 

Bibiano Garcia. Em 2019 fui convidado pelo então deputado Luiz Castro para auxiliá-lo na Seduc (Secretaria Estadual de Educação e Qualidade de Ensino) como secretário adjunto da Capital. Construímos um dos mais ousados Planos de Educação para o Estado onde, em curto, médio e longo prazos tornaríamos a Educação do Amazonas uma das melhores do Brasil. Para tanto seria necessários arrancar as carcomidas estruturas que imperavam naquela secretaria ao longo de inúmeros governos. Em fevereiro daquele ano, por perceber que não nos permitiriam avançar nas metas do ousado Plano que ajudamos elaborar, conversando com o secretário, pedi minha saída da pasta. Luiz estava sozinho, lutando contra uma monstruosa e enraizada estrutura viciada dentro de uma secretaria que tem o maior orçamento do governo, quase três bilhões, mas que naquela ocasião apresentava um rombo superior a R$ 290 milhões. Luiz estava cercado por poucos amigos e os inimigos eram quase invisíveis. Não aceitou meu pedido e pediu que eu não o abandonasse, e eu que nunca abandonei um amigo acabei ficando. Seria uma covardia minha abandonar uma pessoa que tanto lutou para arrancar o câncer da corrupção daquele espaço e que tanto acreditou em mim. Passado 6 meses acabamos deixando a secretaria. Eu retornei para minha sala de aula, com dignidade. Lembro do susto que levamos e o quase desespero quando detectamos o rombo de mais de R$ 290 milhões da secretaria. Mesmo assim, com habilidade, e sem os recursos iniciais, conseguimos garantir o pagamento da data-base, a continuidade do Plano de Saúde que estava ameaçado de paralisar, garantir o abastecimento e melhoria da alimentação escolar, o pagamento da terceira parcela do reajuste dos professores, conquistado na greve de 2017, e a reforma urgente de mais de 97 escolas na capital, escolas essas que não recebiam manutenção há mais de 15 anos. Uma grande frustração foi a impossibilidade de não conseguirmos um reajuste acima da inflação naqueles primeiros três meses de trabalho. Segundo a Secretaria da Fazenda, o impedimento se deu devido o esgotamento dos recursos. Havíamos planejado, a longo prazo, alcançar um dos melhores salários para a categoria dentre os maiores Estados da Federação. Uma meta, um sonho frustrado. Outra frustação foi a de não concluirmos a proposta de incluir como política de Estado a aplicação transparente e o rateio do Fundeb, a cada ano.  

É possível ser professor e não gostar de ler? 

Bibiano Garcia. Quanto você me pergunta se é possível ser professor e não ler, digo que é muitíssimo difícil, não que seja impossível, mas academicamente falando, sim. É como querer que uma planta sobreviva sem a luz do sol, sem o alimento da terra, sem o líquido da vida.  

Você tem algum sonho profissional? Um projeto que desejaria muito realizar? Poderia contar? 

Bibiano Garcia. Hoje meus planos são o de continuar lutando por dignidade, justiça, contra a corrupção, em defesa da educação, da Amazônia, dos povos tradicionais… Deve ser mal de um teimoso. Também pretendo fazer uma faculdade de Direito, instrumento importante para quem atua nas lutas sociais. Faço minhas leituras em casa. Pretendo também escrever um livro compartilhando um pouco do que vivi nos bastidores da política e na época em que exerci a liderança de um dos movimentos de professores em nosso estado. Acredito que pelo fato de não aceitar ou coadunar com aquilo que é errado e viver uma vida simples, porém com dignidade, possa ajudar os mais jovens a acreditarem que é possível se envolver coma política, assumir cargos relevantes em governos e continuar firme nos princípios cívicos, cristãos do trabalho e da honestidade. Há muitos que duvidam que eu possua apenas um carro popular de 2012 e uma casa no bairro de Santa Etelvina, onde moro há cerca de 40 anos. Se for honesto não tem como se tornar uma pessoa rica na política ou no serviço público. A honestidade é uma herança herdada de nossos pais. Pretendo também escrever um livro sobre o tempo em que exerci o mandato de vereador, nossos trabalhos em defesa de uma cidade melhor para todos, e os momentos difíceis quando tive minha casa invadida por duas vezes, os móveis e o carro quebrados e uma jovem riscada de faca dentro de minha própria casa em uma ação envolvendo dois bandidos. Até hoje não tenho informações oficiais sobre os autores dessa barbaridade ou o que tenha motivado tal ato. 

Poderia deixar uma mensagem para os seus colegas professores? 

Bibiano Garcia. Minha mensagem é que um dia as pessoas entendam que um dos caminhos mais nobres e mais difíceis de se alcançar a justiça e a paz é no campo da política. Ela está suja e enlameada devido a timidez ou acomodação daqueles que, mesmo sendo altamente preparados e qualificados, justas e honestas, resolveram ficar sentadas no trono de um apartamento esperando a morte chegar. Lhe digo que, mesmo que um dia você seja perseguido, caluniado ou humilhado, não desista de continuar lutando pelo que acredita e fazendo aquilo que lhe faz feliz, simplesmente por você ser quem você é e não por querer agradar a opinião de outras pessoas. Muito grato ao professor Luís Lemos pelo convite para colaborar com esse projeto respondendo as questões que deram forma a este pequeno texto. E obrigado a você que nos deu a graça de sua atenção e leitura. Um grande abraço do professor Bibiano Garcia. 

Luís Lemos é filósofo, professor universitário e escritor, autor do livro: “Jesus e Ajuricaba na Terra das Amazonas”.  

Para comprar o livro do professor Luís Lemos basta acessar o link https://www.amazon.com.br/Jesus-Ajuricaba-Terra-Das-Amazonas/dp/168759421X ou na Livraria Nacional, no Centro de Manaus.  

Para apoiar o trabalho do professor Luís Lemos se inscreva no seu canal no YouTuber https://www.youtube.com/channel/UC94twozt0uRyw9o63PUpJHg 


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