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No dia 11 deste mês de dezembro, completaram-se cinquenta e cinco anos da data em que, na velha “jaqueira” da Praça dos Remédios, recebi o buscado, almejado e perseguido diploma de bacharel para dar início a uma carreira em que sempre procurei cumprir a parte mais importante do juramento, aquela que nos impõe nunca esquecer a defesa da causa da humanidade.

Mas quem acusa essa ré, ainda hoje carente dos serviços da advocacia?

Acusam-na os intolerantes e o terrorismo, que, em nome de deuses vingadores e belicistas, se julgam credenciados para decidir a quantidade de vítimas inocentes que farão a cada uma de suas irresponsáveis investidas.

Também a acusam a fome e a miséria, estas armas sem explosivos que vão dizimando milhões de pessoas na surdina, já que morrem sem ao menos terem força para fazer eclodir um grito de revolta contra a injustiça.

Ajudam, ainda, na acusação a corrupção e a demagogia, que se espalham pelo planeta como ervas daninhas, corroendo a razão de ser da própria civilização, tudo em nome de um conceito elitista de democracia, em que o povo (ora, o povo) é mera massa de manobra para a satisfação de interesses individuais.

Defender a ré, portanto, não é tarefa que se esgote na retórica dos tribunais, na medida em que a cliente precisa estar visceralmente integrada com seus defensores, formando um bloco compacto de resistência a tantos e tão poderosos ataques, na certeza – o que é pior – de que esse julgamento jamais terá sentença definitiva.

Acho, então, que valeu e vale a pena. Pensar o contrário seria a capitulação incondicional diante do inimigo, deixando a ré entregue à própria sorte.

Utopia? Que seja. Como já ponderou Eduardo Galeano a utopia serve exatamente para isso: para que caminhemos. Uma caminhada em direção ao infinito, na busca da construção de uma sociedade solidária, justa e fraterna, onde todos comam, estudem, trabalhem e se divirtam. Onde todos vivam.

Ora, não é que me sinto de volta aos vinte e dois anos, na hora mesma em que o prof. Abdul Sá Peixoto me entregava o diploma e dona Lucíola me colocava o anel que havia sido do professor Valois? Esquisitices, talvez, de um septuagenário, que se recusa a abrir mão do direito de sonhar.

Dos colegas, Luiz Augusto Santa Cruz Machado morreu em pleno vigor de sua carreira de magistrado e Wenceslau Queiroz foi levado muito cedo da advocacia. Mais recentemente partiram Flaviano Guimarães, Ritta Bernardino, Joaquim Marinho, Ivan Ribeiro e Felismino Soares Filho. Mas ainda sobram os que resistem e batalham. Alcemir Figliuolo, Jessé Rocha, Alfredo Cabral, Marlene Peres (a única flor da turma), Gaetano Antonnacio, afora os que não tenho espaço para citar, hão de se estar perguntando: por que tanto saudosismo?

Porque, tal qual eles, tenho orgulho de continuar ostentando o título de defensor da humanidade, de modo a não permitir que um elefante, ou qualquer outra besta, tenha a ousadia de pretender nos esmagar. Acredito que a Humanidade ainda vai entoar, com Farias de Carvalho, o seu Canto Novo.

Mesmo com a pandemia, que já é de si própria violenta e cruel, e ainda encontra um aliado em ninguém menos que o presidente da República. É isso mesmo: Bolsonaro perdeu definitivamente a noção do ridículo, ao declarar para a Nação que não vai tomar a vacina. Ridículo, estúpido e desprezível.

Por essas e outras é que a Humanidade continua no banco de réus. Mas não ficará abandonada à própria sorte. Os que cultivamos a solidariedade haveremos de estar lutando ao lado dela com a certeza já manifestada por Castro Alves: “Quem cai na luta com glória/Tomba nos braços da História/No coração do Brasil”.


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