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O uso de tecnologia para sugar o dióxido de carbono da atmosfera há muito tempo é descartado como uma forma impraticável de combater a mudança climática – fisicamente possível, mas muito cara para ter alguma utilidade.

Mas, à medida que o aquecimento global se acelera e a sociedade continua emitindo gases de efeito estufa a uma taxa perigosa, a ideia está ganhando apoio de uma fonte surpreendente: grandes empresas enfrentando pressões para implementar medidas climáticas.

Um número crescente de empresas está despejando dinheiro na chamada engenharia de remoção de carbono – usando, por exemplo, ventiladores gigantes para puxar o dióxido de carbono do ar e capturá-lo. As empresas dizem que, ao compensar as emissões que não conseguiriam cortar de outra maneira, essas técnicas podem ser o único modo de cumprir grandes promessas de “emissão zero”.

A Occidental Petroleum e a United Airlines estão investindo em uma grande fábrica de “captura direta de ar” no Texas, que usará ventiladores e agentes químicos para remover dióxido de carbono da atmosfera e injetá-lo no subsolo. A Stripe e a Shopify, duas empresas de comércio eletrônico, começaram a gastar pelo menos US $ 1 milhão por ano cada em startups que trabalham com técnicas de remoção de carbono, como sequestro de gás em concreto para edifícios. A Microsoft em breve anunciará planos detalhados para remover 1 milhão de toneladas de dióxido de carbono.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas apoiado pelas Nações Unidas disse que as nações precisarão remover entre 100 bilhões e 1 trilhão de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera neste século para evitar os piores efeitos da mudança climática – muito mais do que pode ser absorvido simplesmente plantando mais árvores. Mas muitas tecnologias de remoção de carbono continuam muito caras para uso generalizado, muitas vezes custando mais de US $ 600 por tonelada de carbono.

A esperança, dizem as empresas, é que os investimentos iniciais possam ajudar a baixar os preços para algo mais palatável – digamos, US$ 100 por tonelada ou menos – do mesmo modo que os investimentos em energia eólica e solar deixaram essas fontes de energia mais baratas ao longo do tempo.

Mas também existem riscos. À medida que mais empresas se comprometem a zerar suas emissões até 2050, alguns especialistas alertam que elas podem se esconder atrás da promessa incerta de remover o carbono amanhã para evitar cortes profundos nas emissões hoje.

“A remoção de carbono não deve ser vista como um salvo-conduto”, disse Jennifer Wilcox, uma importante especialista em tecnologia da Universidade da Pensilvânia. “A remoção tem um papel a cumprir, especialmente para setores que são muito difíceis de descarbonizar, mas não deve ser uma desculpa para que todos continuem emitindo gases de efeito estufa indefinidamente”.

‘Temos que tentar’

Há um consenso geral de que as empresas que prometem enfrentar as mudanças climáticas devem primeiro fazer todo o possível para reduzir suas emissões – digamos, usando mais energia renovável ou melhorando a eficiência energética. Na maioria das vezes, é mais fácil evitar as emissões do que retirar o dióxido de carbono depois de sua difusão na atmosfera.

Mas isso ainda deixa de lado fontes significativas de emissões que não têm soluções fáceis, como fabricação de cimento, transporte marítimo de longa distância ou viagens aéreas.

A United Airlines, por exemplo, prometeu se tornar neutra em carbono até 2050 e está explorando maneiras de reduzir as emissões, como aeronaves mais eficientes e biocombustíveis sustentáveis. No entanto, essas estratégias podem não ser suficientes, diz a companhia aérea, e é por isso que ela também está investindo na captura direta de ar.

“Se quisermos transformar a aviação em um negócio sustentável, todas as opções têm que estar em cima da mesa”, disse Lauren Riley, diretora-gerente de assuntos ambientais globais da United. “A remoção de carbono talvez não seja uma solução mágica, mas temos que tentar”.

Tradicionalmente, muitas empresas procuram compensar suas emissões com soluções naturais, como pagar a proprietários de terras para proteger as florestas ou plantar árvores, o que absorve o carbono do ar. Mas as árvores têm desvantagens: há uma quantidade limitada de terra disponível e as florestas podem queimar em incêndios florestais, liberando carbono de volta na atmosfera. Os cientistas vêm alertando que as compensações baseadas na natureza são uma correção imperfeita, que pode ser difícil de verificar.

Essas desvantagens estimularam o interesse na engenharia de remoção de carbono, usando tecnologias para puxar o dióxido de carbono da atmosfera e prendê-lo no subsolo ou transformá-lo em minerais, onde provavelmente permanecerá por dezenas de milhares de anos.

Existem protótipos de tais dispositivos funcionando. Mas, durante anos, os engenheiros que desenvolvem a remoção de carbono tiveram dificuldade para encontrar investidores.

“É o problema do ovo e da galinha”, disse Nan Ransohoff, chefe de clima da Stripe, empresa de pagamentos online com sede em São Francisco. “A melhor maneira de reduzir o custo é começar a implantar essas tecnologias em escala. Mas, até que haja clientes de verdade, ninguém vai construí-las”.

Para ajudar a quebrar o impasse, a Stripe anunciou em 2019 que começaria a gastar pelo menos US$ 1 milhão por ano na remoção de carbono, sem se preocupar inicialmente com o preço da tonelada. O objetivo era avaliar as empresas que vinham trabalhando com tecnologias promissoras e lhes oferecer um fluxo de receita confiável.

Depois de reunir especialistas externos para analisar as solicitações, a Stripe anunciou sua primeira rodada de pagamentos em maio do ano passado. Essa rodada incluiu um acordo com a Climeworks, startup suíça que já construiu várias pequenas usinas de captura direta de ar na Europa. A Stripe também pagou US$ 250 mil ao Project Vesta, organização sem fins lucrativos que planeja borrifar minerais vulcânicos nas praias, testando quanto dióxido de carbono eles absorvem conforme as ondas os quebram, por meio de um processo conhecido como intemperismo aprimorado.

As empresas que recebem financiamento da Stripe dizem que o dinheiro foi crucial

“É fundamental para nós”, disse Peter Reinhardt, cofundador da Charm Industrial, startup que a Stripe está pagando para remover 416 toneladas de dióxido de carbono a US $ 600 por tonelada. Sua empresa pegará resíduos de colheitas e os converterá em um óleo que pode ser injetado no subsolo, em vez de deixar os resíduos se decompondo e liberando carbono de volta para atmosfera.

Outras empresas estão investindo de maneira semelhante. A montadora alemã Audi está pagando à Climeworks para capturar e remover 1 mil toneladas de dióxido de carbono de uma nova instalação de captura direta de ar na Islândia, programada para entrar em operação este ano. A Climeworks também assinou um acordo com a Swiss Re, a gigante dos seguros, que este mês criou um fluxo de financiamento dedicado à remoção de carbono. A Shopify, empresa canadense de comércio eletrônico, já comprometeu US$ 1,6 milhão para várias startups de remoção de carbono.

Christoph Gebald, codiretor da Climeworks, disse que sua empresa agora tinha mais de 50 clientes corporativos pagando para capturar e armazenar dióxido de carbono. Sua meta é construir instalações suficientes para remover de 30 milhões a 50 milhões de toneladas da atmosfera por ano até 2030.

‘Uma curva de aprendizado íngreme’

Mas resta saber se as empresas de remoção de carbono conseguirão reduzir seus preços a um nível que seja atraente para o comprador médio. A Carbon Engineering, empresa canadense que fornece a tecnologia para a usina de captura direta de ar no Texas, acredita que poderá baixar os preços para algo entre US $ 94 e US $ 232 a tonelada.

“Financiar uma primeira planta é caro”, disse Steve Oldham, executivo-chefe da Carbon Engineering. A instalação do Texas, parte da estratégia da Occidental Petroleum de usar a captura direta de ar para compensar suas emissões enquanto continua extraindo petróleo, está programada para entrar em operação em 2025 e remover até 1 milhão de toneladas de dióxido de carbono anualmente. “Mas, à medida que construirmos mais fábricas, tenho confiança de que esses custos vão diminuir”.

Para alguns clientes em potencial, o preço continua sendo um problema. A consultoria de gestão Boston Consulting Group planeja comprar remoção de carbono para compensar quaisquer emissões que não consiga cortar até 2030. Mas estabeleceu uma meta de preço de US$ 80 por tonelada, em média, e vai depender mais de soluções naturais mais baratas, pelo menos inicialmente.

A empresa planeja investir em engenharia de remoção, disse Rich Lesser, presidente-executivo do Boston Consulting Group, “mas, por um tempo, será uma pequena parte do pacote, porque a tecnologia ainda é incipiente”.

Por enquanto, a maioria das grandes empresas que promete buscar a remoção de carbono tem sido vaga sobre o que isso realmente significa, de acordo com uma análise de promessas corporativas da American University. Alguns falam em investir em florestas e pântanos, enquanto outros ainda estão explorando suas opções.

Especialistas dizem que as vantagens da engenharia de remoção de carbono muitas vezes são mal compreendidas. As empresas geralmente podem ganhar tanto com o plantio barato de árvores para compensar as emissões quanto gastam grandes somas na captura direta de ar – mesmo que esta última seja uma solução mais durável. (Estadão)


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