Foto: EFE/EPA/ALLISON DINNER
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As cenas violentas de um guarda de fronteira montado em um cavalo, usando uma rédea contra imigrantes haitianos, na região fronteiriça entre EUA e México, causaram choque nacional e internacionalmente — e despertaram memórias perturbadoras para Marleine Bastien.

Como uma imigrante do Haiti no início dos anos 1980, ela assistiu a situações semelhantes com a polícia no centro de detenção federal de Miami, onde protestou contra a prisão ou deportação de outros imigrantes haitianos enquanto refugiados cubanos eram libertados.

A polícia de Miami aparecia “em grandes cavalos tentando atropelar” os manifestantes para dispersar a multidão. Agora, 40 anos depois, “a história está se repetindo”, disse ela.

As críticas sobre o tratamento dado a milhares de imigrantes haitianos que acamparam na fronteira dos EUA com o México ecoa das ruas das cidades dos EUA aos corredores do Capitólio, enquanto as pessoas se mobilizam sobre o que acreditam ser um sistema de imigração racista e desigual nos EUA.

Embora o clamor tenha sido desencadeado pela atual crise de fronteira, é o culminar de anos de frustração sobre o que é percebido como um tratamento mais duro e obstáculos extras enfrentados por imigrantes negros e pobres que vêm para os Estados Unidos em comparação com seus homólogos de pele mais clara.

“Isso é cruel, não americano e inaceitável”, disse Bastien, diretora-executiva do Family Action Network Movement, com sede em Miami, que defende as causas dos imigrantes. “Estou recebendo tantas ligações de pessoas perguntando por quê? O que os haitianos já fizeram para a América? Tudo o que fizemos foi tentar ajudar o país e somos tratados assim? ”

Na terça-feira, cerca de 200 haitianos americanos fecharam uma grande via pública em Miami enquanto protestavam em frente a um escritório dos Serviços de Cidadania e Imigração dos EUA. Manifestantes seguravam cartazes que diziam “Acabem com o racismo na fronteira” e “Trate todas as pessoas da mesma maneira”, enquanto gritavam “Deixe-os respirar”, um esforço para ligar as condições esquálidas que os migrantes estão enfrentando às palavras finais de George Floyd antes de ser morto por um policial de Minneapolis no ano passado.

Nana Gyamfi, filha de imigrantes ganenses e diretora executiva da Aliança Negra para a Imigração Justa (BAJI), há muito fala sobre o que chamou de “dois níveis de discriminação” – por ser imigrante e por ser negra.

“Os imigrantes negros estão sendo desproporcionalmente criminalizados, assim como os afro-americanos, por causa de sua negritude”, disse Gyamfi. “Nossa negritude nos deixa vulneráveis a questões raciais e nos coloca na linha para deportação.”

Ela disse que a prova de que o tratamento dos requerentes de asilo haitianos é um produto do racismo anti-negro – desde serem perseguidos por agentes da Patrulha da Fronteira a cavalo até suas deportações em massa, muitos acorrentados – é clara na comparação com como os refugiados afegãos recebido nas últimas semanas.

“Um grupo está sendo recebido com comida, saudações, lugares para morar, etc. – que é o que é receber bem. E o outro grupo está enfrentando cowboys com chicotes de couro ou cordas e detenção pela força ”, disse Gyamfi.

Deportações de haitianos vão aumentar

Mas, apesar da pressão e das críticas, Estados Unidos planejam acelerar a deportação de imigrantes dos caóticos campos improvisados em Del Río, no Texas, que chegou a abrigar cerca de 15 mil pessoas. Desde domingo, em previstos três voos diários, as autoridades americanas enviaram de volta ao Haiti mais de 500 pessoas que estavam no local. Mas a frequência dos voos aumentará para sete por dia a partir de quinta-feira, o equivalente a mil deportações diárias.

Nesta quarta-feira, o chefe do Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS), Alejandro Mayorkas, conversou por telefone com a vice-presidente, Kamala Harris, e afirmou que as alegações de maus-tratos na fronteira serão investigadas. Nos últimos dias, o presidente Joe Biden vem sofrendo forte pressão interna, e vários políticos, democratas e republicanos, criticaram a maneira com que seu governo vem lidando com a situação.

A violência ocorre também nos voos. Vários deportados denunciaram ter sido algemados durante a viagem, e um deles relatou ter sido acorrentado “como um escravo”, segundo o Washington Post.

“Homens brancos a cavalo com rédeas são vistos perseguindo, gritando e xingando os vulneráveis requerentes de asilo negros, que há semanas e meses fogem em direção ao que pensavam ser um local seguro”, escreveram líderes de várias organizações de direitos civis, incluindo a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), em uma carta ao presidente. “As ações desses oficiais da Patrulha de Fronteira são vergonhosas e mostram uma indiferença pela humanidade dos migrantes negros.”

Na terça-feira, a ONU advertiu que pessoas com pedidos sérios de asilo podem estar em risco: “As expulsões em massa e sumárias que são realizadas atualmente, sem tentar determinar as necessidades em termos de proteção, são contrárias ao direito internacional e podem constituir devoluções”, declarou em um comunicado o diretor da agência da ONU para os Refugiados (Acnur), Filippo Grandi.

Autoridades do Haiti dizem não ter recursos para receber os cidadãos, muitos dos quais deixaram o país há uma década. As deportações ocorrem em meio à profunda instabilidade no país caribenho, o mais pobre do Hemisfério Ocidental, onde o assassinato do presidente Jovenel Moïse, no começo de julho, seguido de um terremoto, no mês seguinte, causaram estragos sociais e econômicos nas últimas semanas.

“Não entendo por que o governo Biden está acrescentando outro problema ao país”, disse Pierre Esperance, diretor da Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos do Haiti.

Status de proteção

Em viagem a Del Río, no começo da semana, Mayorkas disse que o aumento sem precedentes do fluxo de haitianos à fronteira teria acontecido pela difusão de informações falsas sobre como se estabelecer nos Estados Unidos. 

Segundo ele, os imigrantes foram erroneamente informados de que podem continuar no país como refugiados sob o chamado “status de proteção temporária”, devido à turbulência política no Haiti.

“Estamos muito preocupados de que os haitianos que embarcam neste caminho da migração irregular estejam recebendo informações falsas de que a fronteira está aberta ou que o status de proteção temporária está ativo”, disse Mayorkas. “Reiteramos que nossas fronteiras não estão abertas e que as pessoas não devem empreender essa jornada perigosa. Se você entrar ilegalmente nos Estados Unidos, será deportado.”

O status esteve disponível por anos para os haitianos que fugiram para os Estados Unidos após o grande terremoto de 2010, que deixou mais de 200 mil mortos. Após o assassinato de Moïse, foi estendido aos cidadãos que estavam no país, mas só até o dia 29 de julho deste ano.

No início de agosto, diante da onda migratória, o governo Biden decidiu manter em vigor uma controversa medida de saúde pública herdada de Trump, que permitiu ao governo expulsar sumariamente centenas de milhares de imigrantes nos últimos meses em meio à pandemia. Na semana passada, no entanto, um juiz do Texas decidiu que Washington não pode utilizar mais essa medida. O governo tem 10 dias para recorrer.

Enquanto isso, no campo improvisado, a situação é cada vez mais precária. Com roupas e lixo espalhados pelo chão, pais banhavam seus filhos com água do rio e tentavam encontrar alguma sombra no calor insuportável do Texas. Os migrantes disseram que a comida continua escassa e não há banheiros portáteis suficientes.

Para acelerar o desmantelamento do campo, autoridades americanas também começaram, nos últimos dias, a liberar centenas de pessoas, a maioria grávidas e casais com filhos. Muitos foram levados para abrigos da cidade, que, no entanto, não têm capacidade para receber os migrantes durante a noite. 

“As pessoas estão dormindo na rodoviária ou do lado de fora do aeroporto, esperando um ônibus ou avião que os levem para perto de amigos ou parentes em outros lugares dos EUA”,  disse Wade McMullen, advogado da organização de direitos humanos Robert F. Kennedy.

As más condições e o medo da deportação em massa fizeram com que muitos deles retornassem ao México, o que pode levar a mais uma crise migratória. Nos últimos dias, centenas de haitianos fizeram o caminho contrário para Ciudad Acuña, numa perigosa travessia pelo Rio Grande. Com o aumento do fluxo de retorno, o México anunciou que serão oferecidos voos de repatriação para aqueles que desejam retornar ao seu país. 

Em Ciudad Acuña, Maurival Makenson contou que sua irmã mais velha agora se dirigia para a fronteira com a Colômbia, onde cerca de 19 mil migrantes estão detidos em um porto no norte do país, esperando para embarcar em navios que os levarão à fronteira com o Panamá. “Digo a ele que é difícil conseguir papéis, há deportação”, explicou Makenson, de 31 anos. (Estadão)


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