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“Falta de comedimento” parece-me uma expressão muito frouxa para tentar definir o comportamento do sr. Jair Bolsonaro à frente dos destinos do país. E não me refiro apenas à linguagem chula com que ele aborda desde as questões mais triviais àquelas em que há interesse de Estado. Muito além disso, Bolsonaro tem um sentido de prioridades que pode ser taxado, no mínimo, de curioso. O episódio dos fuzis é emblemático. Como é possível que o presidente da República recomende ao povo que compre uma arma de guerra? Quando estava no campo do revólver, ainda havia a desculpa de que se poderia tratar de armamento defensivo. Mas, fuzil? Tenha a santa paciência!

Recorreu Bolsonaro a um provérbio latino, segundo o qual “si vis pacem, para bellum” (se queres a paz, prepara-te para a guerra). Mas, de qual guerra se trata? Impossível penetrar na confusa mente presidencial. Talvez esteja ele se referindo ao próximo 7 de Setembro, que, nas hostes governamentais, está sendo encarado como um campo de batalha. Pura irresponsabilidade. O dia comemorativo da independência deveria ser tratado com um mínimo de respeito.

Acontece, porém, que, no Brasil, os militares sempre se esforçaram por divulgar a inverdade de que só eles são patriotas e só a eles interessa manifestar reverência pelos símbolos da Pátria. Isso nunca foi verdadeiro mas deveria servir, pelo menos, para levar Bolsonaro a uma reflexão mais profunda sobre como tratar a data nacional.

Não duvido que bolsonaristas insanos venham a radicalizar durante as manifestações que estão sendo convocadas. Ninguém tem nada a ganhar com isso. Nem mesmo os próprios bolsonaristas, uma vez que qualquer ato de violência contra as instituições será irremediavelmente debitado à conta do governo federal, com os reflexos inevitáveis na vida política.

E por que chegamos a este ponto? Não tenho qualquer receio de atribuir a culpa integral, absoluta, ao próprio presidente da República. Desde que assumiu, Sua Excelência jamais soube conter a língua e, o que é pior, jamais respeitou a liturgia do cargo, agindo como se estivesse em campanha política. Diante da pandemia, seu comportamento foi uma tragédia. Minimizando a capacidade danosa do vírus, fixou-se em recomendar um tratamento repudiado pelas autoridades científicas do mundo inteiro. Confrontado com o número de mortes cada dia mais crescente, saiu-se com um “e daí” que soou como um tapa na face da nação, já abatida pelos mais de quinhentos mil óbitos que devastaram o solo pátrio.

No cenário econômico, as coisas não andam muito melhor do que isso. Basta ver o preço dos combustíveis. Sua subida é um escândalo e uma ameaça à nossa própria sobrevivência. E o Ministério da Economia trata do assunto com uma insensibilidade de pedra, enquanto, por outro lado, se dedica a resolver os entraves que porventura existam para a expansão do capital transnacional. Uma vergonha!

Seja como for, quero deixar bem clara a minha humilde posição: não vou comprar fuzil nenhum. Não vou atender à insana recomendação. Com o país ostentando uma taxa deplorável de desemprego, é escárnio falar em comprar fuzil. E a comparação que Bolsonaro faz entre fuzil e feijão é ainda mais estapafúrdia. Revela outra faceta da insensibilidade presidencial, à qual pouco se lhe dá que haja brasileiros passando fome.

Repito: não comprarei fuzil. Em lugar disso, prefiro gastar meu escasso dinheirinho adquirindo um livro. Tenho a esperança de que, estudando um pouco mais, me seja possível iniciar um processo de compreensão do “raciocínio” bolsonarista, para o qual o mundo se resume ao cercadinho do Alvorada e à existência de motocicletas. É muito pouco para um brasileiro de verdade.

                       


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