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Na semana em que o 1º de abril completou cinquenta e sete anos, nuvens golpistas voltaram a se concentrar nos céus de Brasília, com intensa movimentação e troca nos gabinetes militares. Mas, ao contrário do que aconteceu em 1964, não vinham dos quartéis os indicativos de golpe. Eles estavam sendo gestados a partir da presidência da República, cujo titular não consegue admitir a ideia de governar sob o império da Constituição e de acordo com as regras do Estado democrático de direito.

Nesse sentido, foi sintomático que, há poucos dias, Bolsonaro tenha tentado fazer um paralelo entre estado de sítio e as medidas de isolamento adotadas por governadores e prefeitos. Conquanto sejam situações inteiramente distintas e com cabimento e destinações também diferentes, o presidente insistia em assemelhá-las. Na raiz disso, um raciocínio que pode ser formulado mais ou menos assim: as medidas de isolamento obrigam as pessoas a ficarem em casa; no estado de sítio, pode haver toque de recolher; logo, eu decreto o estado de sítio e o utilizo para aumentar o isolamento e o meu poder. Como o estado de sítio, num contexto dessa ordem, seria apenas o primeiro passo para a implantação da ditadura pura e simples, a manobra presidencial não encontrou eco nos chefes militares, ensejando o resultado que todos já conhecem.

De toda a confusão brasiliense é possível colher um resultado positivo: foi substituído o ministro das Relações Exteriores. Não conheço o que lhe ocupou o lugar, mas pior do que Ernesto Araújo acho que nem o Bolsonaro consegue encontrar. Nos dois anos que passou à frente do Itamaraty, o homem conseguiu levar a diplomacia brasileira a um nível vergonhoso, para o que contribuiu sua postura de humilhante subserviência aos interesses dos Estados Unidos da América.

Em compensação temos agora um delegado de polícia no Ministério da Justiça. Se é inusitado, não deixa de ser coerente com a postura do próprio Bolsonaro, para o qual todos os problemas do mundo podem ser equacionados e resolvidos por meio da distribuição de armas ao povo. Não é à toa a parafernália de decretos que ele já editou tratando do assunto, todos eles buscando facilitar a aquisição de armamentos e munições que, a continuar assim, vão acabar sendo vendidos em supermercados.

Enquanto isso a pandemia continua solta. Superamos a casa dos trezentos mil mortos e, em um só dia, quase quatro mil brasileiros morreram vítimas do vírus. É certo que também no Ministério da Saúde houve mudança, saindo o general Pazuello e sua logística atrapalhada para a entrada do médico Marcelo Queiroga. É ainda pouco o seu tempo à frente da pasta, de sorte que não dá para avaliar se ele vai montar, como prometeu, um esquema que permita o efetivo enfrentamento da pandemia, com prioridade absoluta para o esquema de vacinação.

Do jeito que as coisas estão é que não podem ficar. Há que conscientizar as grandes massas da necessidade inadiável das restrições sociais. Na verdade, chega a ser impressionante a quantidade de pessoas que, apesar de toda a devastação causada pelo vírus, insiste em encontrar motivos para aglomerações. Se só a essa gente se restringissem os efeitos desse comportamento, poder-se-ia dizer que é uma questão de opção. Mas não é assim que o quadro se delineia. Cada indivíduo que participa de uma aglomeração é um potencial transmissor do vírus para outras pessoas que, recatadas, cumprem sua parte na questão do isolamento.

Temos que seguir em frente, mesmo com Bolsonaro e apesar dele. Afinal de contas é a sabedoria popular que ensina: não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe.

S. – Lamento profundamente a morte do desembargador Djalma Martins da Costa e transmito minha integral solidariedade aos seus familiares. Foi probo e íntegro como promotor e como magistrado.


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