Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Petronilo Aquino, meu amigo desde os tempos de infância, me telefona. A voz trai o desespero. Ele estava me comunicando a morte da Elza, sua filha, uma senhora em pleno vigor dos seus quarenta e oito anos. Causa da morte: covid 19. O que se pode dizer numa hora dessas? Balbuciei, abalado, a manifestação da minha solidariedade, o que é um nada diante da perda de uma filha. Basta lembrar que Chico Buarque já proclamou que saudade, saudade de verdade, é “arrumar o quarto de um filho que morreu”. Saudade e dor, acrescento eu.

A praga parece ter recobrado forças e voltou a atacar com uma violência inusitada. Em menos de uma semana, a OAB/AM teve que amargar a publicação de condolências pelas mortes de três colegas: Bráulio Guidalevich, Ali Jezini e José Lourenço Gadelha, todos em pleno exercício da profissão. Foram-se,ceifados pela inclemência de uma doença que, por sua gravidade e virulência, já devia ter merecido mais respeito e ponderação de parte do governo federal.

Com efeito, no ambiente fúnebre que a moléstia implantou no país, soam desarrazoadas as ironias de mau gosto advindas de pronunciamentos do presidente da República. “A melhor vacina é contrair a doença” e “a vacinação vai ocorrer no dia D e na hora H” são afirmativas que revelam uma postura tresloucada daquele que deveria ser o primeiro a se preocupar com o destino de sua gente. Com elas, Bolsonaro esbofeteia as faces já amarguradas dos membros das famílias dos duzentos e tantos mil brasileiros que sucumbiram à peste.

Além do escárnio, a irresponsabilidade. Estamos inexplicavelmente atrasados nos procedimentos para a vacinação, enquanto outros países, inclusive nossa vizinha Argentina, já iniciaram a imunização de seus nacionais. Por que Bolsonaro age assim? Confesso que já me fiz essa pergunta um milhão de vezes para ver se encontro algo racional para me confortar. Não nego que ele me é absolutamente antipático e que, portanto, não posso vê-lo com benevolência. Mas isso não afasta o cerne da questão: por que a conduta censurável? Por que essa insistência em se afastar das orientações científicas para fincar pé num achismo irresponsável?

Por essas e outras é que esta nossa mui bela e nobre cidade de Manaus está em situação desesperadora, implorando por oxigênio e despachando doentes para outras plagas, pela absoluta impossibilidade de atendê-los. E Bolsonaro manda para cá um ministro da Saúde que pode até entender de guerra, já que é general, mas que não entende bulhufas dessa guerra de combate ao vírus. Se for ele a permanecer no comando dessa batalha, estamos fadados a uma derrota de dimensões incomensuráveis. Pazuello primeiro diz que Manaus terá prioridade e, logo a seguir, assevera que as vacinas chegarão ao mesmo tempo a todas as capitais do país. Deve ser um novo modelo de prioridade que ele aprendeu nos seus tempos de exército, de onde, aliás, não deveria ter saído para fazer papel tão ridículo.

Uma peça publicitária do governo do Estado adverte, com propriedade, que “estamos em guerra”. Como visto, numa guerra sem quartel, na qual o inimigo dispõe de todas as vantagens, inclusive contando com sua invisibilidade. Hão que ser tomadas, então, medidas de guerra, uma das quais, talvez a mais importante, é a conscientização do povo de que o momento não admite brincadeiras. Por favor, minha gente, será que dá para entender que não é hora de tergiversar? Nada de aglomerações. Se não temos um presidente que se preocupe conosco, vamos, nós mesmos, fazer a nossa parte para abater o inimigo.

Se assim não for, quantos de nós, e por quanto tempo, ainda permanecerão sem lamentar a morte de um familiar? Eu não sei e nem me atrevo a pensar nisso.


Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •