Foto: Filipe Araujo/AFP
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A inflação mundial e brasileira deve baixar neste ano. Pelo menos, era essa a expectativa em fins de 2021. Ainda é, na verdade, embora o gato tenha subido um degrau e ora dê uma olhada na direção do telhado.

No segundo degrau do gato da carestia pode aparecer o efeito da variante ômicron nos preços. Ali ou acolá, a nova onda da epidemia fecha fábricas e congestiona portos, como na China, que tem tolerância zero com o vírus.

Não são “lockdowns” grandes ou duradouros, nem na verdade há um levantamento sistemático do problema, apenas “evidência anedótica”. Mas é preciso lembrar que um dos motivos da inflação mundial foi a escassez de produção, como no caso já folclórico dos chips, e de transportes transoceânicos.

Antes de continuar e para ser mais preciso: a taxa de inflação, o ritmo do aumento geral de preços, deve ser menor, aqui e alhures, mas o nível de preços, o custo atual das coisas, vai ficar nas alturas sufocantes. Pior ainda no Brasil, pois os salários não devem aumentar neste 2022. Não devem recuperar o terreno perdido para a inflação nos próximos dois ou três anos (isso se tudo der certo).

Isto posto, há sinais de arrefecimento. A taxa mundial de inflação de alimentos está baixando, a julgar pelo índice da FAO, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. O aumento anual de preços andou a mais de 40% em maio de 2021 e baixou a 23% em dezembro passado. Ainda horrível, mas perdendo ritmo.

A inflação dos derivados do petróleo em parte se deveu a uma alta de preços sobre os níveis deprimidos de 2020 e ao fato de a Opep, o cartel do petróleo, e seus amigos, como a Rússia, restringirem a produção. Além do mais, houve uma crise de abastecimento de outras fontes de energia, como o gás natural, além de problemas climáticos pelo mundo.

Em princípio, não haveria outro salto tão grande, dizem entendidos (no ano passado, o barril começou em US$ 50 e chegou a US$ 86 em outubro). Mas previsões para o preço do petróleo são quase tão furadas quanto estimativas de taxa de câmbio (o “preço do dólar”), se por mais não fosse porque tais projeções estão sujeitas aos azares da política internacional e a outros imponderáveis.

Há bancão do mundo falando de preço do barril em três dígitos, US$ 100 (ora está na casa dos US$ 80). A agência de energia dos Estados Unidos (EIA) prevê que, na média de 2022, o preço médio do barril será 5,5% maior do que em 2021.

A inflação de 2021 no Brasil foi mortífera por causa do aumento de derivados de petróleo, eletricidade e comida. A volta das chuvas e a expectativa de safra recorde no Brasil poderiam dar uma mãozinha para atenuar a alta de preços. Mas ainda haverá aumento de eletricidade neste ano; a safra recorde de grãos pode subir no telhado, embora dificilmente seja ruim.

O preço dos combustíveis pode não subir espantosamente como em 2021, mas sabe-se lá o que será do barril de petróleo e menos ainda da taxa de câmbio, até porque “aqui é Bolsonaro, zorra!” e o ano é de eleição. O desgoverno ajudou a desvalorizar o real de novo; a depender dos disparates que os candidatos a presidente venham a dizer na campanha eleitoral, o dólar pode ir até mais longe. Será difícil de ver uma queda relevante do preço da moeda americana, o que dependeria de entradas de dinheiros, que devem continuar lá fora, esperando para ver que bicho vai dar na política por aqui.

O massacre das taxas de juros, do Banco Central e no mercado de atacadão de dinheiro, deve derrubar uma parte da inflação. Mas isso só vai ser bom porque é ruim, pois o aperto monetário vai manter a economia estagnada, na melhor das hipóteses. (Folha de S.Paulo)


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