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É impossível ter boas lembranças de 2020. Anozinho ruim,repleto de problemas, complicado a mais não poder. Ou será que alguém gostou da pandemia? A pergunta é retórica, apenas para justificar a assertiva inicial.

Para quem optou pelo confinamento, como eu, as angústias da solidão, com seus inevitáveis reflexos na saúde mental. Para quem foi às ruas, por necessidade ou por irresponsabilidade, a proximidade maior com o vírus, com o consequente aumento da possibilidade de transmissão.

De qualquer jeito, foi péssimo. Mascarados, intimidados, reprimindo o medo, passamos quase os trezentos e sessenta e seis dias (ainda por cima, foi bissexto) sufocando uma angústia cruel, que se exibia através da perplexidade com que olhávamos para um mundo transtornado. Transtornado e transformado porque mudaram as relações entre as gentes e porque ninguém consegue ser feliz na solidão, da mesma forma como a felicidade passa a léguas de quem está amedrontado.

Foi um ano safado. Deixou-nos usufruir da folia carnavalesca para, logo em seguida, revelar o que seria o seu restante: a praga se espalhando e nós outros desnorteados porque a doença, nova no pedaço, traía até o conhecimento dos doutores da medicina. O que fazer? – era a indagação. Mas as respostas eram dúbias e tímidas porque a verdade verdadeira é que ninguém tinha a mínima noção das particularidades do vírus.

No nosso país, então, o quadro seria cômico se não fosse caótico. Um Ministro da Saúde foi mandado embora porque pregava o isolamento social. Seu chefe, o presidente da República, ao contrário, era adepto do “laissez faire” e ele mesmo dava o exemplo comendo pastel e tomando garapa no botequins de Brasília. Sem máscara, obviamente.

O novo ministro não teve melhor sorte. Esse mal conseguiu esquentar a cadeira e foi devolvido ao remetente. Motivo: não acreditava nos efeitos milagrosos da cloroquina, remédio que caiu nas graças do Presidente, o qual defendia sua aplicação com uma energia de atleta e a sofreguidão de um fanático. Fora da cloroquina não havia salvação e, por isso, o doutor Teich foi jogado para escanteio.

Para quem sobrou o cargo? Ora, para quem? Para um general, é lógico, já que o capitão pode não se ter dado bem no Exército, mas não consegue deixar passar a oportunidade de colocar um milico na administração federal. E lá está o general Pazuelo, mais perdido que cego em tiroteio, tentando encontrar uma fórmula mágica para enfrentar a pandemia.

Quadro atual: países europeus e os Estados Unidos já iniciaram a vacinação de seus naturais, enquanto nós brasileiros não temos nem sequer uma perspectiva de quando a vacina será aplicada por estas plagas. É notória a má vontade do Presidente para com o medicamento e essa caturrice pode custar ainda mais vidas, além das quase duzentas mil que já foram ceifadas.

A simples virada de página do calendário não vai mudar o caráter e a maneira de ser do Bolsonaro. Ele vai continuar sendo o homem errado no lugar errado. Resta-nos esperar que passem rápido os dois anos durante os quais ainda teremos que suportá-lo obrigatoriamente. E esperar ainda mais que, vencidos esses dois anos, seja ele mandado de volta para o lugar de onde nunca devia ter saído: o esconderijo da sua mediocridade.

Em outras palavras: que nós, brasileiros, coloquemos em prática a filosofia da história do historiador americano Henry Charles Lea e sejamos “mais exigentes quanto ao presente e mais esperançosos quanto ao futuro”.

Feliz Ano Novo.


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