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Tão séria quanto lhe permitem seus sete anos de idade, Heleninha formula a pergunta: “Mãe, antes de nascer a gente fica morta”. A mãe tentou se valer dos ensinamentos de Sócrates e de seu discípulo Platão, na Grécia antiga, mas os dois deram um passe longo, no tempo e no espaço, e jogaram a bola para Darwin, na Inglaterra do século XIX. Como nenhum deles se dignou de responder, a curiosidade infantil foi satisfeita com a velha e cansada história da sementinha que é plantada na barriga da mulher.

Afastando as elucubrações filosóficas e evitando ao máximo questionamentos religiosos em terreno tão movediço, vamos admitir, só para argumentar (“ad argumentandum tantum”, como se diria em juridiquês), que fosse verdadeira a hipótese aventada pela criança. Aí daria para ver, através da História, uma galeria de figuras que não deveriam ter sido incomodadas no seu sono pré-nascimento, eis que, muito pelo contrário, permanecendo mortas teriam prestado significativo favor à espécie humana.

Nesse diapasão, impossível evitar que o primeiro nome a ser lembrado seja o do austríaco Adolf Hitler. O Führer conseguiu deixar a imagem de tudo o que se relaciona com coisas malfazejas: racismo, tortura, intolerância e ódio (calma: eu ainda estou falando do Hitler). Sua fixação com a dominação do mundo, sob a égide da raça ariana, foi a causa do espetáculo mais sinistro vivido pela humanidade ao longo do século XX. Os campos de concentração e as câmaras de gás, em que foram imolados milhões de seres humanos, são o retrato vivo da violência pela violência, sem que seja possível encontrar qualquer justificativa razoável para o morticínio. Temos, pois, que o Adolf deveria ter permanecido morto e nonato.

Acontece que, por incrível que pareça, ele deixou seguidores. Foi assim que surgiram Salazar, em Portugal, e Franco, na Espanha, os quais, com as respectivas ditaduras, mostraram o que é o fascismo na sua mais pura e acabada feição. Um ponto comum é a tentativa de cercear o pensamento divergente e os óbices às manifestações de cultura, além da aplicação da tortura pura e simples aos que ousassem contestar o regime.

A moda não ficou restrita à Europa. Chegou até nós aqui, na América do Sul, onde Augusto Pinochet logrou violentar o povo chileno, transformando o estádio nacional de futebol em campo de concentração para adversários políticos. Isso depois de, no Brasil, o presidente da República ser deposto por um golpe de Estado, quando os generais passaram a se suceder na chefia do Executivo. Com maior ou menor intensidade, Castelo Branco, Médici, Geisel e Costa e Silva nada mais foram do que as encarnações daqueles mesmos princípios que regeram seus congêneres europeus. Ou será que alguém duvida de que o Ato Institucional número 5 tenha sido o instrumento antidemocrático mais violento do século passado? Já se vê que não é pequena a lista dos que deveriam ter permanecido na letargia pré-natal.

Tanto não é pequena que o meu raro leitor já deve estar adivinhando um nome que dela não pode estar ausente. Jair Messias Bolsonaro. Também essa até a Helena adivinharia. Se estava morto, o que que tinham de ressuscitar o Bozo? O homem foi eleito presidente da República por uma conjugação de fatores, dos quais o mais importante foi o antipetismo. Não satisfeito com esse golpe de sorte, passou a pregar sem qualquer pejo a quebra da normalidade democrática, incitando o ódio contra o Legislativo e o Judiciário, na busca de estabelecer, novamente, a ditadura.

Agora, na pandemia, Bolsonaro revela escancaradamente porquê não devia ter nascido: minimiza os males da doença, incentiva o descumprimento de medidas sanitárias e (parece mentira, mas é verdade) se põe a vociferar contra a vacinação de um povo que já viu duzentas mil mortes.

A última dele: “O Brasil está quebrado”, afirmativa que deixou com a cara no chão o seu onisciente ministro da Economia. Também, seria difícil ser de outro jeito. Mesmo sendo um “gigante pela própria natureza”, o país tem seus limites para aguentar a intolerância, o atraso e o ódio.

É. Definitivamente Bolsonaro está na lista dos que não deviam ter nascido. Ele e o seu ídolo norte-americano.


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