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Igor Trofimchuk, motorista de taxi de Odessa, fez uma viagem para comemorar o 82º aniversário de sua mãe, Nina, que vive perto de uma cidade turística no Mar Negro, próxima da Ucrânia.

Dois dias nostálgicos no Zatoka Sanatorium, da era soviética, na praia. Todos os lugares estavam superlotados. E ninguém usava máscaras.

Mas, como muitas pessoas conhecidas dele, elas também zombavam dos alertas sobre os perigos do novo coronavírus. E Igor, quando dirige seu carro, só usa máscara se o passageiro também estiver com uma.

Três semanas depois da estadia na praia, em meados de agosto, sua mãe, uma mulher saudável, que ia à academia todos os dias, morreu por causa da covid-19, e ele teve uma pneumonia dupla causada pelo vírus.

O verão muito quente de Odessa desencadeou uma disparada de casos na Ucrânia, que se tornou um foco de infecções pelo coronavírus à medida que o vírus vem se propagando novamente por áreas do continente. Segundo o premiê britânico, é o início de uma “segunda onda”.

As autoridades de saúde ligam alguns dos novos surtos de covid-19 aos locais de férias de verão onde as precauções contra a pandemia com frequência foram abandonadas.

Mas poucos locais tiveram um efeito tão preocupante como Odessa, para onde os veranistas afluem em grande número desde os tempos da era soviética, em busca das suas praias, dos cafés ao longo da rua Derybasivska e das festas noturnas no bairro da Arcadia.

Mais de 12.000 casos de coronavírus foram registrados na região de Odessa, dois terços dos infectados são turistas e visitantes, alguns levando o vírus de volta para a capital, Kiev, e outros lugares;

O recorde registrado de 1.109 novos casos confirmados num único dia em junho foi quebrado pelas recentes altas diárias de 3.800 infecções, elevando o total de doentes no país para mais de 196.600, incluindo mais de 11.000 infecções de crianças.

Países europeus como a Espanha (14.389 novos casos em 18 de setembro), França (16.096 casos em 24 de setembro), Grã-Bretanha (6.634 novos casos em 24 de setembro) e Holanda (2.777 novos casos em 25 de setembro) viram aumentos diários recorde recentemente.

Na sexta-feira, as autoridades em Moscou alertaram as pessoas com mais de 65 anos para não saírem de casa, uma vez que os números diários de infectados na Rússia aumentaram para 7.000 pela primeira vez desde junho. Oito hospitais de Moscou foram readaptados para enfrentarem a rápida elevação no número de doentes de covid-19.

Esses picos registrados na Europa também servem de avisos potenciais paras as autoridades americanas que lutam contra a maior pandemia de coronavírus do mundo ao mesmo tempo que tentam reabrir lugares como resorts, universidades e alguns locais de esporte.

Segundo o médico de Odessa, Ivan Chernenko, de 27 anos, praticamente todos na cidade ignoraram as recomendações de uso de máscaras e distanciamento social e, ao mesmo tempo, as multidões cresceram no verão.

“Aparentemente as máscaras e o distanciamento social não se encaixam no clima de férias”, disse ele. “A atitude das pessoas é de que não são necessárias as precauções. Elas estão comprando e vendendo, todas sem máscaras. Os clubes noturnos chegaram no máximo da sua capacidade.”.

A resposta do taxista Trofimchuk: “Naturalmente todo mundo estava sem máscara, como nós”. “O tempo todo, antes de eu adoecer, não acreditamos no que era dito sobre a covid-19. Achamos que era mentira. As pessoas só acreditam quando elas ou alguém que conhecem ficam doentes, ou pior, morrem. Se alguém toma precauções, elas riem”.

Para Trofimchuk e sua mãe, beber água gelada no verão ou colocar gelo na sua bebida implica um risco maior de doença, o que é uma crença muito comum nesta parte do mundo. Assim, quando sua mãe adoeceu ela culpou o copo de água gelada que havia bebido.

O ministro da Saúde da Ucrânia, Maksim Stepanov, disse que os casos de covid-19 em Odessa aumentaram 10 vezes desde o início do verão até começo de setembro. “Nas praias de Odessa você não saberia que há uma pandemia na Ucrânia porque podia contar no dedo as pessoas que mantinham uma distância social. A situação era a mesma na própria cidade”, disse ele.

Quase ninguém segue as recomendações dadas pelas autoridades de saúde. “Por alguma razão as pessoas decidiram que, se estão de férias, o vírus também está de férias”, disse Stepanov.

Os hospitais de Odessa ficaram rapidamente sobrecarregados.

No caso do taxista Trofimchuk e sua mãe, seus primeiros sintomas da doença rapidamente se transformaram num pesadelo: longas filas, resultados de teste falsos-negativos, enormes atrasos para a internação no hospital.

E uma exigência bizarra: ele devia chamar uma ambulância para sua mãe, que estava morrendo, apesar de já estarem no hospital. Eles caminharam até lá, mas ela não podia ser admitida porque tinham vindo a pé.

Com a mãe deitada num banco, ele chamou uma ambulância que levou 40 minutos para chegar. Foram levados a um outro hospital onde tiveram de aguardar numa longa fila e depois para um terceiro, que também se recusou a interná-la por causa de um problema de documentação da ambulância.

“Minha mãe, que não conseguia andar, foi obrigada a esperar do lado de fora até eu resolver o problema. Ela estava disposta a voltar para casa e morrer lá. Só depois de esperar das 13h às 18h30, foi encaminhada para a UTI”.

O vice-diretor da UTI encarregado naquele dia não trabalhava à noite. Não havia ventiladores suficientes para os pacientes, disseram voluntários do hospital.

Quando o taxista voltou na manhã seguinte viu muitas pessoas chorando, lamentando a morte de parentes na UTI naquela noite. Sua mãe faleceu no dia seguinte. “Se pudesse mudar alguma coisa, jamais teria ido de férias para um local com tanta gente”, disse ele.

E afirmou também que pode ter sido infectado no seu táxi conduzindo as pessoas de um lugar para outro. Com a pneumonia, ele precisou ser internado num hospital de doenças infecciosas.

Alexandr Malin, proprietário do hotel de praia Portofino, no bairro de Arcadia em Odessa, disse que os funcionários usavam máscaras e os encarregados do restaurante procuravam respeitar o distanciamento social, mas as praias em Odessa ficaram lotadas durante todo o verão. E muitos donos de restaurantes não respeitaram a ordem das autoridades de fechar seu estabelecimento a partir das 23h.

Ele disse conhecer muitas pessoas que ficaram doentes ou morreram por causa do vírus, mas que era difícil determinar exatamente onde uma pessoa foi infectada”.

Yekaterina Nozhevnikova, ativista de Odessa, disse que no início de março alertou para a necessidade de equipar os hospitais da cidade para a pandemia.

“O número de pessoas hospitalizadas aumentou exponencialmente”, afirmou Yekaterina, que é voluntária de uma organização não governamental, Corporation of Monsters, que fornece assistência humanitária para pessoas necessitadas. “Os turistas acham que não há quarentena. O sol brilha. Portanto todos ficam descuidados. Não mantêm distância uns dos outros e não usam máscaras”, disse. “O que é triste é que voltam para casa carregando o vírus e colocando mais pessoas em risco”.

Em maio, segundo o Dr. Chernenko, as autoridades implementaram restrições que todos respeitaram, mas que depois foram relegadas por causa do descontentamento da população. “Agora, basicamente, não existe nenhum controle”, acrescentou. (Estadão)


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