Foto: Ricardo Moraes/Reuters
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Dois dos melhores jogadores de futebol do mundo vivem situações opostas em suas respectivas seleções. Enquanto Lionel Messi se apaixona cada vez mais pelos torcesdores argentinos, como nunca antes, Neymar parece se afastar dos brasileiros, boa parte indiferente a tudo o que ele faz em campo com a camisa do Brasil. O antagonismo desses dois astros pôde ser conferido nas últimas apresentações deles pelas Eliminatórias. O atacante brasileiro foi mal diante da Colômbia, errou passes e gols, discutiu com rivais e depois deixou o gramado em Barranquila sem estender as mãos para os donos da casa, desdenhando o fair play que deve ocorrer so fim de todas as partidas.

Messi, em Buenos Aires, comandou uma Argentina que chutou a gol mais de 20 vezes, ganhou de 3 a 0 do Uruguai no tradicional clássico do Rio da Plata, e ainda fez gols, encurtando seu relacionamento com os torcedores e sentindo o doce sabor de jogar sem pressão e com tudo dando certo desde que a Argentina ganhou a Copa América, há três meses, no Maracanã. Aquele título mudou Messi na seleção. Ele e toda a sua geração, que ainda não tinha erguido nenhuma taça, estão mais leves e sorridentes.

Aos 34 anos, Messi parece um jogador renovado. Trocou de time na Europa e começa a se reencontrar no futebol do Paris Saint-Germain, onde também está Neymar. Ocorre que Messi rouba a cena onde quer que vá e, dessa forma, não seria demais dizer que ele é mais do que o atacante brasileiro no clube francês nesse momento. Talvez se rivalize com Mbappé, campeão do mundo e da Liga das Nações e principal jogador da seleção do país. Neymar figura abaixo dos dois. Messi também renovou seus laços com a Argentina, por quem já chorou algumas vezes e até ameaçou desistir de defender suas cores. Felizmente para o time, ele mudou de ideia e agora conduz a equipe nacional com  mais leveza e graça. Deu gosto de ver Messi e seus companheiros diante do bom rival Uruguai, de Cavani e Suárez. O time se prepara para enfrentar o Peru, novamente em casa.

Resgate do passado

A seleção argentina viveu momentos de amor com seu torcedor nas duas vezes em que ganhou uma Copa do Mundo, em 1978 e 1986, já sob o comando de Diego Armando Maradona, com quem Messi disputa a preferência dos seguidores para apontar o melhor da história do país. A nova geração fica com o jogador do PSG. Os mais velhos não têm dúvidas: Maradona foi maior. Outros dois momentos dos argentinos com sua seleção se deram em Copas América,  de 1991 e 93, quando o time parou de ganhar.

Messi viveu esse jejum por duas décadas, amargando derrotas duras em finais de torneios, como na Copa do Mundo de 2014, também no Maracanã, diante da Alemanha. A Argentina jogou melhor aquela decisão. “Oxalá está comunhão com a torcida dure muito tempo. Esses torcedores são impressionantes. É cada vez mais lindo pode viver e desfrutar disso”, disse Messi, autor de 80 gols com a seleção argentina. Messi esperou muito tempo por esse sentimento, em que time e torcedor formam uma unidade.

A Argentina nem é a melhor equipe nas Eliminatórias da Copa do Mundo do Catar (esse título é do Brasil), mas está jogando o fino da bola, tem em seu camisa 10 um jogador renovado, com espírito de menino debutante, cujo objetivo é um só: jogar bem o Mundial de 2022. A geração de Messi, depois de tirar um elefante das costas com a primeira conquista, acredita que pode mais. Dá para ver isso nos olhos dos jogadores, nas jogadas acertadas e também nas que eles erram sem sofrer como sofriam antes. Não é mais só ganhar ou perder. A graça de Messi está em jogar, em criar, no jeito em que toca na bola como se estivesse acariciando um de seus filhos. É lindo ver isso.

Na contramão dessa felicidade futebolística, como sol e lua, Neymar vive momentos de escuridão. Além de não estar em sua melhor condição técnica, alguns dizem que também não estão bem fisicamente. Outros ainda falam que seu foco está em outro lugar que não dentro de campo. O próprio Neymar corrobora com algumas dessas insinuações, quando diz que a Copa do Mundo do Catar, em um ano, pode ser sua última.

Acho que é minha última Copa do Mundo (2022). Eu encaro como a minha última Copa porque não sei se terei mais condições, de cabeça, de aguentar mais futebol. Então vou fazer de tudo para chegar muito bem, fazer de tudo para ganhar com meu país. Para realizar o meu sonho desde pequeno e espero poder conseguir”, disse Neymar, em entrevista ao documentário Neymar Jr. and The Line Of Kings, da DAZN.

Ruim de cabeça

Mais do que uma simples frase de efeito, como quase tudo o que vem de Neymar, não dá para descartar o que todos viram, por exemplo, nos Jogos Olímpicos de Tóquio, quando uma das atletas mais reverenciadas do mundo, a ginasta americana Simone Biles, desistiu de suas provas por não se sentia focada, com cabeça boa para disputar e vencer as provas para as quais foi preparada e treinada a vida toda. Neymar não entrou em detalhes nem acusou qualquer problema nesse momento para realizar seu trabalho, mas não se pode descartar que atletas de alto rendimento estão sucumbindo às pressões e descompassos emocionais que o tiram de combate, como aconteceu também com a tenista Naomi Osaka. Portanto, mais do que uma simples frase de efeito, é preciso acompanhar Neymar de perto. Ele tem todo direito de não querer mais.

Que ele não está bem, não está. Faz tempo que não faz uma boa partida, daquelas que costumava fazer. Diante da Colômbia, nesta semana, em Barranquilla, o atacante do PSG mostrou-se um jogador comum, com muitos erros de passe, batendo boca com rivais e saindo em disparada para o vestiário assim que o árbitro encerrou a disputa, sem qualquer disposição para cumprimentar seus colegas de time e também os adversários, como todos fizeram.

Neymar não sorri mais, pelo menos não em público. Parece sempre longe e não consegue mais se destacar dentro de campo. A cabeça pode estar ruim. Inteligente que é, já fez suas leituras no clube de Paris e também começa a sacar que o Brasil conta com ele para ganhar a sexta Copa do Mundo. É um peso grande até mesmo para ele, que ‘sofre’ com isso desde os tempos do Santos.

No passado não muito longe, Ronaldinho Gaúcho, depois de fazer muito mais do que Neymar no futebol, decidiu que era hora de parar de competir, de curtir mais a vida e o dinheiro que ganhou com lances que nos enchem de orgulho. Não parou oficialmente com o futebol, mas passou a fazer outras coisas, em apresentações e convites pagos como se fosse um artista da bola. As pessoas ainda querem ficar perto dele e ver o que é capaz de fazer em campo e quadras, ou simplesmente num palco.

Parece até que Messi passou o elefante que carregava nas costas para o amigo Neymar. Os brasileiros se dividem em seu futebol e nas coisas que faz fora dele. O atacante não tem posição na seleção, apesar de ser inquestionável em seus atos e apresentações. O que falta a Neymar, apenas olhando para ele, é alegria. Neymar Jr. é uma marca gigantesca, uma empresa que deve tomar muito tempo do jogador. Metade do planeta acompanha pelas redes sociais o que ele faz nelas. Um espirro é curtido.

Para o torcedor brasileiro, talvez nunca houve uma distância tão grande em relação ao jogador. Neymar não faz questão de ter a torcida ao seu lado, pelo menos não nos atos ou no tempo gasto com crianças e adultos que o seguem. Ele abraçou um garoto que furou a segurança quando a delegação estava em Barranquilla, antes de embarcar para Manaus, onde faz nesta quinta mais uma partida pelas Eliminatórias, contra o Uruguai. Vai rever o amigo Suárez e o desafeto Cavani. A atenção dada ao torcedor é pouca para quem já foi tão querido e tem um carisma enorme. Como qualquer um à beira dos 30, Neymar pode estar fazendo uma revisão de suas conquistas e tentando achar um caminho. (Estadão)


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