SAI DA FRENTE - Merkel: alta popularidade antes de deixar o governo e o Parlamento (ao fundo) Michael Kappeler/AP/.
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Faz tempo que Angela Merkel, a chanceler da Alemanha, é a voz mais poderosa da Europa, tanto pela capacidade de gestão quanto pela falta de competição à altura. Uma série de fatores, porém, parecia estar abrindo fendas na armadura de competência da senhora de 65 anos, sempre de terninho e salto baixo e sem um pingo de glamour, que está completando quinze anos no governo. A primeira trinca foi sentida quando ela marcou data para sair: há dois anos, anunciou que não concorreria a um novo mandato de deputada, que acaba em 2021, abrindo mão da liderança da União Democrata Cristã (CDU) e do comando do país. Depois, atravessou, em público, três constrangedores episódios de tremedeira incontrolável — assegurou que os acessos não atrapalhavam em nada seu desempenho e foi em frente. Em meio a tudo isso, o CDU perdeu o parceiro de coalizão, saiu-se pior do que esperava em eleições regionais e viu a extrema direita se tornar uma ameaça real.

Quando se pensava que Merkel tinha assumido a posição de lame duck — o “pato manco” que não acompanha o bando e fica sujeito a ataques de predadores, expressão que, em inglês, designa um político sem expressão —, eis que ela novamente se firma no topo: segundo pesquisa recente, conta com a aprovação de 79% dos alemães e caminha, isso sim, para um fim de carreira dos mais excepcionais. “Merkel nunca será vista como uma líder carismática, mas sabe administrar como ninguém a política do dia a dia”, define Karl-Theodor zu Guttenberg, que foi seu ministro da Defesa entre 2009 e 2011.

Contribuiu muito para a renovada admiração pela chanceler a forma como conduziu o combate ao novo coronavírus. Combinando clareza de decisões com tecnologia de ponta e serviço médico de qualidade, ela conteve o contágio, limitou o número de mortos e impediu a repetição, em seu país, das cenas de sofrimento vistas nos vizinhos — de quebra, ganhou 11 pontos no índice de popularidade só de março para cá. Passado o pior da pandemia, é Merkel agora quem está no comando do ousado plano de reconstrução das economias da União Europeia. Ao lado do francês Emmanuel Macron, anunciou a injeção de 500 bilhões de euros para os países do Sul, os mais afetados, em condições muito menos rígidas do que as usuais — Merkel sempre foi feroz guardiã da chave do cofre do bloco.

Na mesma UE, provando que não dá ponto sem nó, Merkel garantiu seu legado instalando na presidência do órgão executivo, a Comissão Europeia, uma ex-ministra de seu governo, Ursula von der Leyen. Em outra jogada acertada, o projeto de recuperação econômica tem tempero ecológico — questão que mobiliza a juventude europeia —, prevendo vastos recursos para as indústrias verdes e outros passos na direção da total neutralização das emissões de carbono nos 27 integrantes da UE. A propósito, o meio ambiente é uma das bandeiras do francês Macron, que sonha um dia ocupar na UE o protagonismo de uma Merkel. Para coroar, a chanceler alemã esnobou Donald Trump — figura de pouquíssimos amigos na Europa — ao anunciar que não iria ao encontro do G7 marcado para junho (e adiado para setembro) em Washington. Foi a primeira a fazê-lo, alegando a necessidade de fiscalizar o controle da pandemia, e assim frustrou os planos do presidente americano de usar a presença dos líderes mundiais mais importantes como demonstração de normalidade nos Estados Unidos.

Filha de um pastor luterano, Merkel foi criada na Alemanha Oriental, o lado comunista do país, e conquistou um ph.D. em química quântica pela Universidade de Leipzig — a origem, segundo estudiosos da política europeia, de sua excepcional capacidade analítica e do método científico de tomar decisões. Cada desafio é submetido a comparações, projeção de cenários, ponderação de riscos e a longa reflexão, sem espaço para emoções — todas as esferas de seu governo são guiadas por critérios técnicos. Agindo dessa forma, ela soube, por exemplo, tirar partido da ascensão da China, o que levou o comércio bilateral a passar dos 200 bilhões de euros anuais. Tornou-se também a principal ponte entre o Ocidente e a Rússia (ela fala russo com fluência), sendo a única chefe de Estado que Vladimir Putin trata com deferência. Em relação a Trump, percebeu logo que, com ele, a parceria entre Europa e Estados Unidos não era mais a mesma e não insistiu em uma aproximação. “Merkel é extremamente pragmática e guiada por metas”, diz Dan Hough, professor de ciências políticas da Universidade de Sussex.

Apesar da boa fase da chanceler, os problemas internos continuam e o CDU passa por um momento difícil. Em fevereiro, a sucessora que Merkel ungiu pessoalmente, Annegret Kramp-­Karrenbauer (o nome de difícil pronunciação costuma ser abreviado para AKK), desistiu da candidatura ao cargo de chanceler e abandonou a presidência do partido depois que um braço da legenda se aliou, em uma eleição regional, ao Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema direita — hoje a terceira força política alemã. Os tropeços partidários não arranharam a imagem de Merkel. A Mutti (Mãe), como os alemães apelidaram a chanceler, que não tem filhos, há de pôr ordem na casa.

Publicado em VEJA de 17 de junho de 2020, edição nº 2691


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