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O professor Alves d’Assumpção, como filólogo que era, não transigia com solecismos nem com estrangeirismos. Não teve ele, feliz ou infelizmente, que assistir à era da informática, onde, à conta de algumas palavras realmente intraduzíveis, somos obrigados a conviver com tolices como inicializar.

Gostava de futebol o ilustre mestre. Mas não pronunciassem esse nome porque ele imediatamente repelia o anglicismo, ao argumento irretorquível de que o vernáculo estava a exigir que o jogo fosse denominado ”bolípede” ou “ludopédio”. E o gol, que para ele não era um detalhe, devia ser chamado de “tento”.

Jogavam no Parque Amazonense Fast e Nacional. Eram duas grandes equipes, mas a partida não chegava a despertar grande interesse em razão da previsibilidade do resultado: o Fast, por certo, iria golear (ou seria tentear?) seu velho freguês. Apesar disso, o professor Alves d’Assumpção acompanhava todos os lances, com o ouvido colado no imenso rádio Phillips que funcionava com oito pilhas.

Já ficou abismado o professor quando o narrador, descrevendo um lance com o máximo de empolgação, asseverou aos queridos ouvintes que Paçoca cobrou a falta rasteira, mas a bola se perdeu por cima do travessão.

No intervalo, veio ao microfone o comentarista oficial que, talvez pelo forte sotaque lusitano, gozava da simpatia do mestre.

Na análise do desempenho dos jogadores, disse o radialista a respeito de Dentinho: — Está em boa forma física. Dribla bem, cabeceia bem, tem excelente noção de colocação em campo, mas é um péssimo jogador.

Não entendeu nada o professor Alves d’Assumpção, mas, condescendente, ponderou para o filho que, ao lado, mergulhava na Antologia Remissiva, do professor Napoleão Mendes de Almeida:

Ou estão erradas as premissas ou a conclusão é estapafúrdia.

O Parque Amazonense era um velho estádio, com instalações mais do que precárias. Contam os mais antigos que eu que ele servira como hipódromo e, assistindo a alguns jogos de futebol que lá aconteceram, diziam que eram verdadeira homenagem às origens do local.

O jogo alcançara a metade do segundo tempo, o Fast já vencia por cinco tentos a zero, quando o locutor, verdadeiramente estarrecido, anunciou que parte da arquibancada do Parque estava desabando. Desencadeada a correria e suspensa a partida, pede a emissora que o comentarista diga aos queridos ouvintes o que está acontecendo, até para tranqüilizar a família amazonense.

Vejo correr sangue, muito sangue vermelho, senhores ouvintes, foi a intervenção inicial do comunicador e que provocou imediatamente um desmaio em dona Antonica que, do outro lado da cidade, também acompanhava os acontecimentos, já que tinha dois filhos no estádio.

Os facultativos das duas equipes foram acionados para prestar assistência aos feridos e a polícia trata de isolar a área da tragédia, prosseguiu.

Dona Antonica que, à custa de muita água com açúcar, recobrava os sentidos, desta vez tombou literalmente e tiveram que acionar Dona Neném, rezadeira oficial que, entre outras coisas, era imbatível no combate a cobreiros e a carnes trilhadas.

O professor Alves d’Assumpção não escondia sua apreensão, mas não perdia a fleuma. Ouviu, então, a voz impostada do comentarista:

Agora, senhores ouvintes, para dificultar ainda mais o trabalho de socorro às vítimas, começa a chuviscar torrencialmente no Parque Amazonense.

O professor desligou o rádio.

O pleonasmo do sangue ainda tolero, que pode ter vindo à conta de aviso tranqüilizador para a família d’Orleans e Bragança. Mas chuvisco torrencial… francamente.

E passou o resto do domingo relendo o episódio de D. Inês de Castro, a que depois de morta foi rainha.


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