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Sou de um tempo em que o ensino público, em todos os níveis, era respeitado pela excelência dos mestres que nele atuavam. Ensinava-se e quem não aprendia era simplesmente reprovado, numa equação tão simples e eficiente que custa crer tenha sido relegada ao abandono.

No Grupo Escolar Princesa Isabel fiz do jardim de infância até o quinto ano primário. Impossível não recordar das professoras Olga Rocha e Neuza Lemos que, maternal mas não frouxamente, nos desemburraram. A palmatória, principalmente nas sabatinas, era de uso obrigatório e nem por isso algum dos meus colegas tenha ficou traumatizado ou virou serial killer. Em outros grupos escolares, as irmãs Vieira (Ylsa, Rosinha, Dalva e Maria Lúcia) eram exemplos de competência e dedicação.

As quatro séries do ginasial (hoje essa terminologia está caduca) enfrentei no Instituto de Educação do Amazonas. O professor Miguel Duarte não me sai da cabeça, como dela também nunca mais me saíram as desinências e declinações latinas que ou decorávamos ou não passávamos. O professor João Crisóstomo de Oliveira nos obrigava (santa obrigação) a elaborar mapas como radicais e sufixos gregos e latinos, de tal maneira que pudéssemos compreender o que falávamos e o que escrevíamos. A professora Lila Borges de Sá me fez aprender até alguma coisa de canto orfeônico.

O curso clássico foi no Colégio Estadual do Amazonas. Era uma Universidade. É com reverência e respeito que menciono os nomes dos professores Afonso Celso Maranhão Nina, Manoel Otávio Rodrigues de Souza, Otávio Mourão, Agenor Ferreira Lima, Farias de Carvalho, Raimundo Said, Manoel Bessa Filho, Esmeraldo Bessa, Mário Ypiranga Monteiro. Não estão aí citados por ordem de preferência ou de qualidade, visto que eram todos impecáveis no sacerdócio do ensino.

Na Faculdade de Direito, a velha jaqueira da Praça dos Remédios, a pletora de catedráticos era inestimável. Adriano de Queiroz, Lúcio de Rezende, Raymundo Vidal Pessoa, João Ricardo de Araújo Lima, José Lindoso, Aderson de Menezes, Áderson Dutra, Ernesto Roessing, Sadoc Pereira, Jauary Marinho, Oyama Ituassu, Xavier de Albuquerque, Abdul Sá Peixoto, Carlos Borborema, Benjamim Brandão, Paulo Nery, Olavo das Neves, Ariosto Rocha, Samuel Benchimol, Henoch Reis. Nem no Largo de São Francisco se encontraria equipe melhor ou de maior qualidade.

Por que essas reminiscências? Imagino que todos devemos desculpas aos velhos mestres pelo que aconteceu com o ensino no Brasil.

Chega-se à Universidade sem noções de filosofia, porque ela foi banida do currículo. Os ataques à língua portuguesa são uma constante. Lembro-me de um aluno que escreveu “omissídio” e de tantos outros para os quais o vernáculo era um obstáculo intransponível. Isso em pleno curso de graduação em direito, sabido que esse ramo do conhecimento só permite trabalhar com a palavra. Escrita ou falada, mas palavra, pura e simplesmente.

Há muitos anos vi um cartaz que anunciava “Faculdade pela Internet”. Fiquei espantado. A rede mundial ainda engatinhava e meu espanto decorreu de singelo raciocínio: se com a presença física o ensino já está uma porcaria, pela internet há de ser o apocalipse. Melhor seria para mim se não tivesse feito tal elucubração. Os cursos à distância são hoje a coisa mais comum do mundo, principalmente depois que a pandemia nos atingiu com força devastadora. O que não quer dizer que esteja alcançando resultados minimamente dignos.

Tenho, pois, que, see não é o apocalipse, é o seu ensaio. Por isso, eu, pessoal e humildemente, peço desculpas a todos os que, em outras épocas, construíram o ensino público.


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