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Há pouco mais de 12 meses atrás éramos apresentados a um visitante indigesto: o novo coronavírus. Um personagem que nem mesmo a Ciência o conhecia direito. De lá para cá o mundo virou um campo de guerra. Tornamo-nos prisioneiras de nossas próprias casas. O medo tomou conta de todos. A rotina mudou radicalmente nos quatro cantos do planeta. Viagens, passeios, eventos e agendas foram radicalmente alterados. Na prática, deixamos de ter o controle sobre nossas próprias vidas. Quem passou a ditar as regras foi o tal visitante indigesto, poderoso e incomparavelmente letal. Havia quase 100 anos que o mundo não conhecia uma pandemia com tamanha proporção. A última foi entre 1918/1920. A chamada “gripe espanhola” cujo vírus, aliás, é da mesma família do novo coronavírus.

Quando em 11 de março de 2020 a Organização Mundial da Saúde solenemente declarou  que o foco de infecção em Wuhan na China espalhara-se pelo resto do mundo, alcançando uma escala global, as perspectivas eram as mais sombrias possíveis. Naquela oportunidade, 10 em cada 10 pesquisadores, afirmavam que somente a partir da metade do ano de 2021 é que o mundo poderia contar com alguma vacina. Outros apostavam que apenas no final daquele ano é que surgiria uma vacina. Antes disso, nem pensar.

Foi quando experimentamos a primeira onda da pandemia no mundo. Um primeiro surto que matou milhares de pessoas e deixou os sistemas de saúde de muitos países no mundo colapsados, como se fossem atingidos por uma tsunami. Era o cartão de visita do inimigo invisível. Aliás, o primeiro deles, pois oito meses depois, experimentaríamos outro, muito mais agressivo que o primeiro.  

Para o bem da humanidade, porém, as previsões não se concretizaram. Ao final de novembro de 2020 o mundo já poderia contar com, pelo menos, quatro vacinas promissoras: Oxford/AstraZeneca, Pfizer, Moderna/BioNtec e Coronavac. Era a luz no final do túnel que todos nós aguardávamos ansiosamente.

A coisa evoluiu e, atualmente, contamos com 08 vacinas sendo aplicadas ao redor do planeta. Aqui no Brasil já contamos com duas delas, com perspectivas para a chegada de mais duas no curto prazo: a russa Sputnik e a vacina da Johnson & Johnson.

Apesar das fortíssimas aliadas, não devemos nos esquecer que, assim como os contágios dos vírus, o efeito de uma vacina também ocorre em ondas. Ela nasce num ponto qualquer do planeta e de lá se propaga em direções diversas, espalhando-se como uma grande nuvem do bem. A velocidade de propagação, porém, depende de fatores como logísticas de transporte ecapacidade de guarda e conservação do produto. Entretanto, também de dinheiro e capacidade de produção. Este último – produção em grande escala – talvez, o maior deles.

Além disso, temos que considerar ainda que a vacinação de uma pessoa não produz anticorpos instantaneamente em seu organismo. Após aplicadas, elas exigem tempo para agir. Nas vacinas aplicadas em duas doses – como a de Oxford/AstraZeneca e a Coronavac – a produção de anticorpos no organismo começa a ocorrer 07 dias depois. A partir daí a produção aumenta gradativamente e só atinge o seu pico (próximo de100%) no décimo quarto dia após a segunda dose.  Esse fator joga também contra a imunização da população mundial. Além disso, temos um número gigantesco de pessoas a serem vacinadas.

Façamos as contas.

Somos próximos de 8 bilhões de almas no mundo. Parte das vacinas exige a aplicação de duas doses para se obter uma eficácia próxima de 100%. Por aí já precisaríamos de 16 bilhões de doses, isto é, o dobro da população mundial.

No mundo, o principal produtor de vacinas é uma gigante indiana que atende pelo nome de Instituto Serum. Atualmente, sua produção está a todo vapor. Porém, o instituto tem um grande desafio pela frente. Só na Índia, o desafio é produzir vacinas para 1,353 bilhão de pessoas. Uma tarefa nada fácil. Quanto mais suprir a necessidade de duas centenas de países!

Pois bem. Muito embora as vacinas ajudem muito, elas precisam de tempo para se propagarem pelo mundo, em razão dos fatores que comentei anteriormente. Para ser totalmente vacinado, muito provavelmente o mundo careça de dois anos ou maiso que prolongaria a pandemia no mundo. O problema é que não podemos aguardar por tão longo tempo.

O controle da pandemia no mundo passa pela seguinte equação.

A população mundial pode ser dividida em dois grandes grupos. No primeiro deles está a parcela da população que ainda não foi infectada pelo vírus ou que, embora já infectada, não precisou de maiores cuidados médicos em razão dos sintomas terem sido leves. Na atualidade, essa parcela da população encontra-se recuperada e permanece a espera de ser vacinada. Ela compõe a maior parte da humanidade.

A outra parcela está representada pelas pessoas que se encontram nos hospitais, precisando de tratamentos médicos intensivos. Esse segundo grupo é que pressiona os sistemas públicos e privados de saúde. Aqui mora a limitação das vacinas. Seu calcanhar de aquiles.

É que, apesar de promissoras e eficazes, em relação à população internada as vacinas não poderão ajudar. Elas funcionam como drogas PREVENTIVAS, isto é, que impedem que o vírus cause danos no organismo quando infectado. Por isso, o grupo de populações internadas continuará pressionando as redes de hospitais. Ante à grande demanda, muitos deles carecem de profissionais da saúde e insumos hospitalares. A resultante é que o número de óbitos aumenta significativamente pressionando os serviços funerários.

Por outro lado, enquanto aguardam na fila da vacinação, o outro grupo também pode ser contaminado pelo vírus podendo vir a bater às portas das unidades de saúde, em busca de serviços médicos. O resultado é que essas parcelas adicionais de infectados funcionaram como combustível para estrangular ainda mais os já combalidos sistemas de saúde.

Nesse cenário, qual a solução? Respondo: SOMENTE A DESCOBERTA DE DROGAS CAPAZES DE CURAREM A COVID-19 PODE ABREVIAR NOSSO CALVÁRIO. No atual estágio da pandemia no mundo, e levando-se em consideração que a imunização da população mundial vai demorar, apenas a chegada de medicamentos eficazes para tratarem os doentes é que representará um alívio imediato para as pessoas já acometidas pela Covid-19, reduzindo-se drasticamente a pressão sobre as unidades hospitalares e os profissionais da saúde.

Ademais, essas drogas teriam a virtude também de tratarem o primeiro grupo; na eventualidade de ele vir também a se contaminar com o vírus e adoecer de Covid-19, enquanto aguarda na fila esperando ser vacinado. Isso evitaria que ele viesse no futuro próximo a também alimentar a fila nos hospitais.

Sobre as perspectivas para a chegada desses novos aliados, em dezembro último a AstraZeneca anunciou o AZD7442 que promete evitar que o infectado pelo novo coronavírus evolua para a Covid-19, se o medicamento for tomado até o 8º dia de infecção. Ele conferiria imunidade instantânea contra a doença. Sua chegada está aguardada para março ou abril do corrente ano.

Outra descoberta promissora está relacionada à comprovação da eficácia de uma droga antiviral que já existe – a tapsigargina – contra o novo coronavírus. Até então, a comunidade científica já se sabia que ela agia eficazmente contra três espécies de vírus: o vírus da gripe comum,  o vírus sincicial respiratório (VSR) e o vírus influenza (H1N1). A descoberta promissora foi feita por pesquisadores do Reino Unido e da China. O medicamento previne a replicação do vírus em células durante pelo menos 48 horas depois de apenas uma dose. O medicamento não age no vírus, mas no sistema imunológico humano.

De se ressaltar que há diferença entre alguém infectado pelo coronavírus e uma outra pessoa acometida da Covid-19. O fato de um organismo está infectado não significa que tenha Covid-19. O AZD7442 impede que o infectado pelo coronavírusevolua para a Covid-19, impedindo-o de sofrer os danos ocasionados por ele em órgãos como pulmões, rins, coração e sistema neurológico.

Outra droga que sinaliza como promissora é a ABX464, conduzida pelo Brasil e pela França, sob a direção da Abivax, uma empresa francesa de biotecnologia. A proposta da droga é reduzir a possibilidade de internação de um paciente com Covid-19, além de abreviar o tempo de recuperação. Além de a Anvisa aprovar os estudos aqui no Brasil, também os órgãos de vigilância sanitária da França, da Alemanha, do Reino Unido e da Itália fizeram o mesmo em seus respectivos países. México, Chile e Peru deverão ser os próximos a aprovarem as pesquisas.

No Brasil os estudos estão sendo coordenados pelo Dr. Jorge Kalil, imunologista e professor titular da Faculdade de Medicina da USP. O ABX464 é uma droga anti-inflamatória, mas que também tem propriedades antivirais. Na verdade, o foco inicial dessa droga era tratar inflamações em doenças autoimunes, mas que ante à pandemia, os estudos clínicos sofreram mudança na trajetória, a fim de investigar sua eficácia contra a Covid-19.

Inicialmente 1.136 pacientes acima de 65 anos de idade foram e estão sendo submetidos aos testes. A droga será aplicada após a constatação da infecção dos voluntários. A previsão é que os testes sejam finalizados no Brasil agora no início de 2021.

Além desses medicamentos existem inúmeros outros sendo pesquisados ao redor do mundo. Se tudo correr bem e os testes se mostrarem realmente eficazes, talvez agora no primeiro semestre de 2021 já possamos contar com mais aliados para tentar frear a pandemia no mundo. Aliados “de peso” e de eficácia instantânea. Não apenas um, mas vários deles, como aconteceu com as vacinas.

A estratégia dos cientistas é trabalhar com drogas antivirais já existentes ou, ainda, com ensaios clínicos que já se mostraram eficazes para outras doenças cujas características guardam estreita relação com a Covid-19.

A ideia é cortar caminho, pois a pesquisa e o desenvolvimento de uma droga genuinamente nova para o tratamento da Covid-19 poderia demandar 5 ou 7 anos. O mundo não pode aguardar tanto tempo.

Portanto, continuemos acreditando na Ciência e nas mentes brilhantes dos pesquisadores. Verdadeiros heróis e salvadores de vidas.

Alipio Reis Firmo Filho

Conselheiro Substituto – TCE/AM e Doutorando em Gestão


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