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Como é de seu feitio, a revista Forbes publica periodicamente noticiário sobre as maiores fortunas do planeta. Há brasileiros no meio da elite, mas o número um do ranking continua sendo o senhor Bill Gates, dono da conhecida Microsoft, a gigante dos computadores. Dizem que o homem tem algo em torno de quarenta e seis bilhões dólares. Tive que escrever por extenso porque confesso que não sei se minha matemática seria capaz de colocar corretamente o número de zeros. É dinheiro capaz de fazer inveja para qualquer operação bíblico-zoológica dessas desencadeadas pela Polícia Federal.

Enquanto isso, o site www.clickfome.com.br informa que a cada 3,6 segundos alguém morre de fome no mundo e que a fome crônica mata vinte e quatro mil seres humanos por dia. Esclarece, ainda, em verdadeiro contraponto aos bilhões do sr. Gates, que, a cada ano, meio milhão de crianças ficam cegas ou parcialmente cegas por deficiência de vitamina A e que há setecentos e noventa milhões de pessoas desnutridas nos países em desenvolvimento, enquanto nos países ricos o número é de trinta e quatro milhões. Devemos ficar sabendo, também, que, a cada ano, sete milhões de crianças abaixo de cinco anos morrem devido à fome ou à desnutrição e, finalmente, que (a pobreza também tem seu bilhão) a deficiência de iodo, principal causa de retardo mental, ameaça um e meio bilhão de pessoas no mundo inteiro.

Castro Alves exclamaria: “É miséria demais!”. Mas aqui, hoje e agora, não adianta apenas repetir o brado do condoreiro e pedir que se levantem “os heróis do Novo Mundo”. Mesmo que Andrada arranque “esse pendão dos ares” e que Colombo feche “a porta de seus mares”, a brutalidade da injustiça social continuará a nos estapear diariamente, talvez para nos dizer o óbvio: somos todos responsáveis por ela e a acomodação e o egoísmo que demonstramos é o caldo de cultura ideal para que ela continue a proliferar.

Não adiantam soluções paliativas. Os programas sociais que, de uns tempos a esta data, os governos brasileiros implementam e sustentam não são capazes de qualquer alteração no quadro de injustiça. Quem dera que fossem! Ocorre, porém, que, no final, temos apenas a sofisticação dos velhos métodos paternalistas em que o Brasil vem bodejando desde que Cabral pisou na terra tupiniquim. Nada mais do que a repetição do famoso dar o peixe sem ensinar a pescar, através do qual a massa de miseráveis se satisfaz com os brioches, já que não há pão. Mas a lona do circo, mesmo rota, ainda está estendida.

Jamais terei sequer um milionésimo dos bilhões do sr. Gates. Afinal de contas sempre ganhei a vida trabalhando e sei que nenhum semelhante meu jamais se sentiu lesado por qualquer atitude que tenha eu assumido.

É inveja, dirão os que de mim não gostam. Não, não é. É apenas vergonha. Vergonha por saber que, neste exato momento, um ser humano, igualzinho a mim, está morrendo por não ter uma pouca de alimento para levar à boca, enquanto uma seleta minoria vive à tripa forra. Vergonha de ver o dinheiro público ser constantemente mal empregado, enquanto os hospitais do sistema ainda proporcionam o espetáculo de mulheres parindo nos corredores.

Mas não é apenas vergonha. Junto a ela, ainda cultivo a esperança de que um dia alguém poderá viver no mundo sonhado pelo velho e barbado judeu alemão, em que de cada um se exija segundo sua capacidade e em que cada um tenha de acordo com a sua necessidade. Aí vão dizer que sou ingênuo. Nada contra. Satisfaz-me o fato de saber que minha ingenuidade pelo menos não é nociva à multidão que anseia por uma côdea de pão e vai levando a vida apesar da indiferença oficial.

Não riam da minha esperança. Ela é o alimento do meu sonho de justiça social.


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