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Em plena ditadura, o grande Chico Buarque lançou “Apesar de você”. Os militares e seus rigorosos serviços de inteligência não compreenderam de pronto os objetivos e alcance da letra, de tal maneira que, tomada como um lamento de amor, a canção teve ampla divulgação durante pelo menos seis meses. Era tocada e cantada em todas as festas, na medida em que, para felicidade geral, ainda não havia ocorrido a epidemia de duplas sertanejas, nem o axé era considerado algo que pudesse ser erigido à dignidade da música.

Aí caiu a ficha, como diz hoje a juventude. A censura foi implacável e a peça musical entrou no índex, banida e execrada como um terrível instrumento a favor da subversão. Executá-la, a partir de então, passou a ser prova inconteste de vinculação irremediável com todas as forças do mal, cujo banimento o DOI-Codi e o SNI perseguiam com determinação hercúlea.

“Você que inventou o pecado esqueceu-se de inventar o perdão”, cantou o poeta. Era para aqueles tempos de chumbo. Em tudo se via crime contra a segurança nacional, em cujo nome se montou um esquema monstruoso de repressão que, não raro, chegou à morte de brasileiros. Pensar diferente dos milicos, por exemplo, era falta gravíssima, que haveria de ser considerada hedionda, se já existisse essa lei ridícula que hoje macula a tradição jurídica brasileira. Era o pecado sem perdão.

Mas a advertência serviria, pergunto eu, apenas para aquela época? No sentido da relação autoritária, sem réplica ou contestação, claro que sim.

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Uma singela paráfrase, contudo, pode perfeitamente trazê-la para o cenário de hoje em que novamente os donos do poder não só inventam como praticam o pecado. Óbvio que não lhes compete “inventar o perdão”, porque este, para existir, haveria de partir de suprema magnanimidade do próprio povo que assiste estarrecido ao pecaminoso espetáculo.

Cuido, entretanto, que não há perdão possível para tamanhas faltas, que, na hierarquia católica, seriam consideradas mortais, não se podendo beneficiar o pecador nem com o estágio do purgatório, sendo-lhe reservada a danação eterna nas chamas do capiroto.

Já houve quem postulasse que o caso do orçamento secreto não é tão grave que torne indispensável a imposição da penalidade de perda do mandato aos parlamentares que dele se beneficiaram.

Para tanto, suponho, deve ser preciso que o indigitado receptor da propina seja flagrado em práticas bem mais graves, como, por exemplo, o estupro da respectiva genitora, a prática de sodomia com descendentes ou a aplicação do garrote vil no próprio pai, como forma de antecipar o recebimento da herança.

Se é assim que estipula o Código Bolsonariano, paciência. Que ele e seus devotados seguidores utilizem os dotes de inteligência de que disponham a serviço de um processo investigatório e é possível até, provável mesmo, que venham a encontrar transgressão de alguma norma que se encontre dentro das hipóteses mencionadas no parágrafo anterior. Afinal de contas, cesteiro que faz um cesto, faz um cento e nada é impossível no terreno da criminalidade.

Enquanto não o fazem, deveriam ser lembrados de que a adversativa “apesar de você” está precisamente em contraposição à afirmativa de que “amanhã vai ser outro dia”.

E aos que, com eterno pessimismo, me disserem que o “outro dia” em relação à ditadura deu nisso que aí está, só posso responder com a eterna metáfora de Eduardo Galeano, segundo a qual a utopia, que sempre se afasta quando dela nos aproximamos, existe precisamente para que nos obrigar a caminhar, na medida em que (ai já vem outro subversivo chamado Geraldo Vandré) “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

E, então, terão inteiro cabimento as advertências de Chico Buarque a todos os bozos e bolsominions da vida: “você vai se dar mal et coetera e tal” pela simples razão de que “você vai pagar e é dobrado cada lágrima rolada neste meu penar”.

O resto é esperar para ver “o dia raiar, de repente, impunemente”, a fim de que ninguém possa abafar “nosso povo a cantar na sua frente”.


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