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Do doutor Flávio Antony recebo a seguinte mensagem: “Manaus, 12 de julho de 2021. Prezado Felix Valois, em busca de reminiscências saudosas do meu adorado pai Aristóphano Antony, encontrei na Revista da Academia Amazonense de Letras n° 8, uma homenagem ao teu pranteado e inesquecível pai, Felix Valois Coelho, sob o título “Rosas sobre um túmulo”, que te remeto para reviveres a pujança e a beleza da intelectualidade do teu genitor. Fraternal abraço”. O mínimo que posso fazer é transcrever o texto até como reverência a uma época em que a língua portuguesa era tratada com o devido respeito. Eis aí:

“Rosas sobre um túmulo – Aristóphano Antony –

Dia de Corpo de Deus. Cinco de Junho. Estava eu em casa, preparando-me para viajar no dia seguinte, pela madrugada, quando, às últimas horas da tarde, uma das minhas filhas veio avisar-me que o rádio estava anunciando a morte de Felix Valois Coelho. Abrira-se, naquele instante, mais uma vaga na Academia Amazonense de Letras. Entrava em vacância a poltrona que tem o alto patrocínio de Machado de Assis. E o seu ocupante, até então, fora um dos espíritos de grande fulguração, elemento de revelo do maior sodalício de cultura, do Estado. Sabia-o gravemente enfermo e, diariamente, através de confrades, ia me informando da marcha ascensional da sua enfermidade. Até que a sua hora chegou, em derradeira ressonância.

Felix Valois Coelho. Quem o visse, nas ruas, sem o conhecer, não podia saber que naquele físico diminuto existia uma inteligência rebrilhante. Quem o olhasse passar, na sua costumeira modéstia, não poderia nunca julgar que punha os olhos numa das maiores culturas do Amazonas. E que nesse homem, que nesse quase anacoreta que vivia mais no seu gabinete de estudo do que nas reuniões sociais, palpitava um filólogo de boa estirpe, um poeta de surtos condoreiros e um estilista, enfim, da melhor polpa. Era ele assíduo às reuniões da Academia Amazonense de Letras, onde se fazia ouvir com acatamento pelos seus pares, que o sabiam ilustre, que o sabiam bom, enaltecendo-lhe, por isso, o saber e a largueza do coração.

Há um mês, portanto, Felix Valois Coelho dorme o sono eterno. Despediu-se das canseiras desta vida, o intrépido lutador. Creio que, por não ter tido lazeres, pois consumia as suas horas entre o seu cartório e as cátedras em que professava, foi abatido mais pelo trabalho excessivo. Seja como for, a sua morte a todos nos compungiu. E deixou na Academia Amazonense de Letras um claro difícil de preencher. Como que estou a vê-lo, rindo às vezes das nossas irreverências e ele próprio, discretamente, fazendo os seus epigramas, durante as nossas tertúlias no Silogeu. Não participai dos seus funerais, por estar ausente. E hoje, no trigésimo dia de sua morte, deixo sobre o seu túmulo, com esta crônica, a minha braçada de rosas vermelhas. 5.7. 1958”.

Claro que, durante a leitura, as lágrimas me vieram aos olhos. É que, apesar do tempo decorrido, a lembrança do meu Velho é sempre forte, ainda mais quando a evocação vem da pena privilegiada do saudoso jornalista Aristóphano Antony. A família agradece ao Flávio pela lembrança e pela gentileza.

P.S. – O doutor Herimar Neves Grana foi um juiz que sempre colocou sua humanidade acima das intrincadas e vazias teorias jurídicas. Era um guerreiro e amigo. Morreu na semana passada. Ficou a saudade. Que a terra lhe seja leve.


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