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Eu nunca tinha notado: nos jogos de futebol não se vê um atleta usando a camisa com o número vinte e quatro. Mas o olho de lince da ONG Grupo Arco Íris de Cidadania LGBT detectou a falta e não quis conversa: entrou na justiça com uma ação para determinar que o time da seleção brasileira, na final do dia 10 pela Copa América, substitua a camisa número 25, do jogador Douglas Luís, pela de número 24, esteja ele no time principal ou entre os reservas. Uma das alegações aponta preconceito com o número 24 “pela associação ao animal veado no jogo do bicho”.

Se a decisão lhe for favorável, a ONG proponente da ação pede, ainda, que, em caso de descumprimento, seja fixada multa no valor de cinco por centro sobre a quantia a ser recebida pela CBF, o que implicaria numa condenação da ordem de algo em torno de quinhentos mil reais.

Eu não queria ser o juiz que vai enfrentar esse pepino de decidir a questão. Se acolher o pedido, estará implicitamente reconhecendo a existência (e a importância) do jogo do bicho, que, ao que consta, continua proibido no país. Se negar acolhimento à pretensão manifestada estará sob o crivo implacável de todas as ONGs e demais organizações vinculadas ao assunto.

Vamos ser realistas: o número vinte e quatro traz, no Brasil e só no Brasil, um estigma exatamente pela razão apresentada na ação de que se cuida. É uma tolice, mas é uma realidade. O de que eu não tenho certeza é se esse fato é suficiente para que o poder judiciário seja acionado, não só pela futilidade do assunto, mas também porque a mim me parece inviável o que se busca na ação. Com efeito, como obrigar uma pessoa a ostentar na camisa um número determinado? Teria ela inúmeros motivos para se recusar a fazê-lo, todos eles vinculados ao mesmo princípio que levou à propositura do feito.

Poderia alegar, por exemplo, que o número vinte e quatro é incompatível com seus princípios religiosos ou, simplesmente, que ele lhe é fonte de azar. Seriam argumentos ridículos, mas proporcionais ao pedido formulado, na medida em que envolvem crenças pessoais, desvinculadas de princípios. No caso específico, o atleta poderia ainda ponderar que, ostentando o número vinte e quatro na camisa, sentir-se-ia pouco à vontade, o que prejudicaria seu desempenho e, por via de consequência, o da equipe como um todo.

Como se vê, não é uma questão que encontre solução fácil ou de algibeira na medida em que envolve preconceito e fanatismo. Melhor seria não ter acionado o poder judiciário e buscar uma conciliação em que, ponderados todos os argumentos, as partes se vissem reciprocamente satisfeitas.

De minha parte, não tenho nenhuma objeção a que a seleção nacional ostente qualquer número, seja vinte e quatro ou sessenta e nove. O que me interessa é que ela jogue bem e seja proibida de reeditar aquela exibição contra a Colômbia em que apresentamos o antifutebol.

Neste sábado, portanto, vamos aguardar com ansiedade como a pendenga vai ser resolvida: se o Douglas Luís aparecer com a camisa 24, vamos torcer para que ele tenha uma atuação de craque, o que poderá servir para demonstrar que o número é o que menos importa no futebol.         


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